Watanabe Hiiro ­—

 

   O temido dia finalmente chegou. Hoje tenho que fazer valer todas as horas de estudo e dedicação dessas últimas semanas! Por isso, assim que levanto, tomo um banho frio e um café da manhã leve, depois saio de casa com trinta minutos de antecedência. 

 Caminho até o prédio escolar, tentando manter os meus nervos sob controle. Lembro das dicas que a Ootsuka me deu e daquelas que li na internet sobre o que fazer antes de uma prova importante. Uma delas é não ficar tentando relembrar todo o conteúdo antes do exame, mas essa parece ser ignorada por todos os estudantes (inclusive os mais nerds) e está sendo bem difícil não ficar repetindo os conceitos de geografia mentalmente. 

 Quando chego ao portão, vejo que a maioria dos estudantes já está na escola. Pelo semblante deles, dá para perceber que não sou o único na corda bamba.  Me aproximo de um dos arbustos floridos do jardim de entrada e fico ali, esperando o tempo passar.

  ─ Ei, Hiro-chan!! ─ olho para o lado e vejo Makoto se aproximar com seu costumeiro sorriso aberto. 

 ─ Está empolgado para a prova?

 ─ Sim! Mas ao mesmo tempo estou triste pelo ano estar chegando ao fim... Bem, pelo menos não somos terceiranistas! Vamos ter o ano que vem inteirinho antes da vida adulta chegar e massacrar nossos corações jovens e cheios de paixão! ─ ele diz dramaticamente, colocando a mão sobre o peito.

─ Não seja tão exagerado, Makoto.  O único massacre que me preocupa agora é o da prova de geografia sobre mim.

─ Você não estudou com a Keiko-chan e os outros colegas nas aulas extras? Seja mais confiante! Você vai conseguir tirar uma nota boa! ─ Makoto repousa sua mão sobre meu ombro, tentando me passar uma sensação reconfortante. 

 ─ Eu sei... mas acho que esse nervosismo é impossível de controlar totalmente, ainda mais porque preciso tirar uma nota mais alta que aquela torre de Paris... 

 ─ O importante é não deixar a sua insegurança vencer! Olhe, a Keiko-chan e a Akemi-chan estão passando pelo portão!

 Viro meu corpo para trás e vejo as duas andarem de braços dados. Ootsuka está rindo de alguma coisa, enquanto a sua tímida amiga ruboriza intensamente com as mãos cobrindo a boca.  

 Ootsuka parece notar que estamos a observando e nos lança um olhar indecifrável por alguns segundos. Ela parece hesitar em qual caminho seguir, mas acaba indo com a Saika-san para outra direção.  

 ─ O amor está no-

 ─ Cale a boca, Makoto. Vamos para a sala antes que o sinal toque! 

 Meu colega de classe olha para mim com um biquinho, se fazendo de chateado. Levanto a sobrancelha e saio andando, e ele logo vem na minha cola. 

 Nós dois nos sentamos na segunda fileira das carteiras, lugar escolhido pelo Makoto.  A gente fica conversando durante alguns minutos, enquanto o professor não chega. Para falar a verdade, acho que ele está atrasado... Esses professores gostam de brincar com nossos sentimentos antes das avaliações!

 Sem conseguir conter minha ansiedade, acabo me levantando e indo para o corredor, em busca do bebedouro para ver se um pouco de água gelada me acalma. 

  Quando termino de usufruir do bebedouro e me viro para voltar à sala, noto a presença da representante de classe atrás de mim. 

   ─ Ootsuka...

  Ela não diz nada, apenas anda mais alguns passos até que nossos rostos estejam distantes por centímetros. Sinto suas mãos delicadas pousarem sobre meus ombros e os apertarem. 

   ─ Watanabe-san! Dê o melhor de si! Você tem que tirar um A! Essa é sua missão! Eu acredito em você! 

       ─ E-eu... 

   ─ Faça essa promessa a si mesmo! Tire um A! Se você repetir o ano, eu nunca o perdoarei! 

 As palavras dela me deixam atordoado. Sinto minhas pernas amolecerem, mas em alguns segundos junto minhas forças para recuperar a minha compostura. 

 ─ Eu prometo! Eu vou conseguir um A! ─ falo automaticamente, sentindo o ar se esvair dos meus pulmões. Ootsuka sorri, o sorriso mais aberto e contagiante que eu já vi por parte dela. Depois, ela simplesmente me solta e volta para a sala. 

 Apoio meu corpo no bebedouro, ainda me recuperando do que acabou de acontecer. Então, também volto para a sala, antes que o professor chegue e meu F esteja garantido sem eu ao menos ter a oportunidade de tentar.  

  Após cinco minutos, o professor Hiroshi finalmente chega com a pilha de exames debaixo do braço. Fecho os olhos, fazendo um pedido para mim mesmo: Por favor, Watanabe. Dê o melhor que tem, por você, pelos seus pais e pela...

  Sinto alguém cutucar meu braço. Abro os olhos e o professor está do meu lado, estendendo o papel do exame. Pego a folha e volto toda a minha atenção à prova. 

  Certo, vamos ler a primeira questão...

  As letras começam a se embaralhar diante de mim. Não, eu não vou deixar isso acontecer de novo! Respire, Watanabe. Inspire. Expire. Inspire. Expire. Inspire. Expire. 

  Leio a questão de novo e recordo que tratei desse assunto em uma das primeiras aulas extras. Rapidamente, começo a escrever minha resposta. 

   E vamos para a segunda questão!  Leio o enunciado, e me surpreendo ao notar que também sei a resposta. Então, é hora de...

A terceira questão. A quarta questão. E Então a quinta... e a sexta, a sétima, a oitava... a nona e a décima...

Eu terminei a prova! Deixo o lápis cair sobre a mesa, sinto minhas mãos tremerem. Eu terminei a prova! Eu terminei! Eu consegui! 

 Releio todas as minhas respostas mais uma vez, só para conferir. Tudo certo. Hora de entregar... 

 Levanto e percebo que a sala está quase completamente vazia, com exceção de mim e mais uns três alunos. Ando até Hiroshi-sensei, entrego a prova e faço uma pequena reverência. 

  Assim que fecho a porta atrás de mim, sinto um peso enorme desabar e sair das minhas costas. Meu coração ainda bate rápido da ansiedade, e, instintivamente, vou à procura de uma das pessoas responsáveis pelo meu sucesso. 

  Não preciso procurar muito. No fim do corredor, com seu corpo encostado contra a parede, está... 

  Não penso muito. Apenas ando rapidamente até ela e a envolvo em um abraço. 

  ─ Obrigado! ─ é a única palavra que consigo proferir. ─ Obrigado! 

  Nos primeiros segundos, meu abraço não é recíproco. Ootsuka enrijece o corpo em choque, e quando penso que fiz uma grande besteira, sinto dois braços me envolverem. 

   As garotas podem usar perfume na escola? Ou isso é apenas o cheiro do seu shampoo? Por que alguns fios do seu cabelo parecem azuis quando a luz bate sobre eles? São tantas perguntas que de repente tenho vontade de fazer quando... 

   W-watanabe-san? Keiko-chan?