— Watanabe Hiiro ­—

 

 Rolo pela cama durante a noite inteira, falhando em conseguir dormir. Meu corpo sua tanto, já dá para ver as marcas de suor no lençol. Nunca antes na minha vida eu me senti tão nervoso com um teste. 

 Tente se acalmar, minha consciência diz. Você está dando o seu máximo. Confie em si mesmo!

  Por mais que eu repita essas palavras na minha cabeça, não consigo me sentir melhor. Ao invés de me lembrar das horas extensas que passei estudando, lembro das vezes que dei uma escapada do meu castigo e acabei mexendo no computador.

  Não se pressione tanto assim, Watanabe. Ninguém é de ferro para conseguir ficar 24 horas estudando sem nenhuma pausa. 

 Faltam poucos dias para a primeira prova e ainda estou me sentindo absurdamente inseguro. Tenho medo de acabar passando mal na prova novamente, e não há nada que me acalme. Fico nesse conflito mental tentando me encorajar, mas é extremamente difícil. 

  Decido levantar da cama e ir até a cozinha para tomar um copo d’água. Ando lentamente no escuro, com cuidado para não fazer barulho e acordar meus pais. 

  Meu pai... Desde daquele sermão que levei, nós não temos falado mais do que cumprimentos um para o outro. De repente, sinto uma vontade de tirar as melhores notas da turma só para mostrar como sou capaz! 

  Continuo nesses devaneios até adentrar a pequena cozinha. Vou em direção a geladeira, pego minha garrafa d’água, tiro a tampa e entorno todo o conteúdo na minha boca.

  Ah, a sensação da água gelada descendo pela garganta é mesmo reconfortante!

  Depois de terminar de saciar minha sede, volto para o quarto e faço uma última tentativa de dormir, que felizmente obtém sucesso! 

   Acordo três horas depois, levanto e me arrumo para ir à escola. 

   Decido andar bem devagarinho até a o prédio escolar. A distância é curta, então posso me dar ao luxo. Sinto a brisa da manhã no meu rosto. Tento aproveitá-la ao máximo, toda a sensação de calmaria e paz que ela proporciona.

 Quando finalmente chego aos portões da escola, minha solene paz é interrompida por duas mãos sacudindo meus ombros.

 ─ Hiiro-chaaaaaan! ─ a voz aguda de Makoto faz meus tímpanos tremerem. 

 ─ Olá, Makoto.

 ─ O ano está finalmente acabando! Ano que vem seremos veteranos! Você pode acreditar nisso?!

 ─ Sim, eu posso. 

 ─ Não está nem um pouco empolgado? ─ ele me pergunta, mostrando um sorriso de orelha a orelha.

 ─ Estou mais preocupado em passar de ano primeiro.

 ─ Ah, é verdade! Você está fazendo as aulas extras com a Keiko-chan, né? Como está a situação? Vocês estão se dando bem?

 ─ Surpreendentemente, sim. 

  Não contei nada para Makoto sobre o incidente do outro dia e sobre como eu e a Ootsuka finalmente começamos a nos entender. Ele começaria a montar várias teorias de namoro e não quero me iludir. A Ootsuka é uma garota bonita, atraente e agora descobri que também é legal. Se eu começar a criar expectativas, vou entrar no próprio Inferno. Não quero estragar nossa recente amizade com meus hormônios adolescentes. 

 ─ Rá, eu sabia! Quando o destino entrelaça a vida de duas pessoas, não há nada que se possa fazer para evitar!

 ─ Makoto, já pensou em seguir a carreira de cartomante?

 ─ Não, mas parando para pensar... Tenho uma forte intuição sobre as coisas! Talvez eu seja mesmo um sensitivo! Hiiro-chan, obrigado por abrir meus olhos! ─ ele diz, enquanto se curva em agradecimento.

 ─ Eeeh Makoto, está cedo demais para isso, não acha?

 ─ Você pode desconfiar do que falo, mas no final minhas previsões vão dar certo! Quer apostar quanto que você e a Keiko-chan vão começar a namorar durante as férias?!

 ─ Eu não vou apostar uma coisa dessas! ─ droga, posso sentir meu rosto ruborizando!

 ─ Porque sabe que vai perder! 

 Sério, esse cara realmente não desiste. 

 

— Ootsuka Keiko ­—

 

 Mais um dia de aula termina. Antes de ir para a monitoria, procuro os membros do Clube de Literatura para confirmar nossa última reunião no sábado. Então, finalmente, sigo para o terceiro andar.

 ─ Ootsuka-san, você pode tirar uma dúvida minha, por favor? ─ uma colega de classe me aborda assim que entro na 318. Nós duas nos sentamos em uma das carteiras e ela me empresta seu caderno para que eu veja onde está sua dificuldade.

 Depois disso, outros dois estudantes vem procurar minha ajuda. Olho em volta da turma, e percebo Watanabe coçando a própria cabeça enquanto lê um livro de geografia. Queria poder ajuda-lo, mas não posso dar privilégios para ninguém, então ele vai ter que esperar ou então falar com Megumi-san ou Ai-san.

 Volto minha atenção aos dois alunos a minha frente.  Os dois vem com um debate sobre uma questão bem ambígua que está no livro didático e nós demoramos bastante para chegar até a resposta que consideramos mais correta.

 Quando olho para o relógio preso na parede, vejo que já está na hora de irmos para a casa. Arrumo meu material e cumprimento o pessoal, que também está indo embora, com exceção de Watanabe. Ele ainda está com a cabeça enfiada no livro, completamente focado no que está lendo.

 ─ Ei, já está na hora de ir!

 ─ A-ah, é verdade. ─ ele levanta a cabeça para falar comigo. ─ Eu acabei me distraindo...

─ Você está seriamente preocupado com geografia, não é?

─ Acho que não preciso confirmar mais uma vez.

Suspiro. Tento pensar em algo que possa auxiliá-lo, até que uma luz se acende em minha mente, porém a ideia é absurda. Mesmo assim...

─ V-você quer estudar um pouco mais na minha casa? ─ digo, as palavras mal saindo da minha boca. 

─ T-tem certeza? S-seus pais não vão se incomodar? ─ posso notar suas bochechas corarem. Droga, minha ideia foi realmente estúpida, ele deve estar pensando o pior de mim agora!

─ Eles ainda estão viajando. Eu sei que parece estranho pais deixarem a filha sozinha durante tanto tempo, mas é o que o trabalho deles exige. 

─ Bem, acho que não tem problema nenhum, então...

─ Mas não fique pensando besteiras só porque estaremos sozinhos! ─ declaro, tentando vestir minha expressão mais assustadora. 

─ Ah, você não precisa nem me dizer isso.  ─ ele diz com um sorriso tímido. De alguma forma, esse comentário me machucou. Será que ele não pensou besteira por ao menos um segundo? Não que eu goste de caras pervertidos, mas o fato de eu aparecer tão fora da zona de atração dele fez eu me sentir um pouco magoada.

 Nós andamos em silêncio até o bicicletário.  Eu subo na bicicleta e começo a pedalar devagar rumo  a minha casa, com Watanabe em meu encalço. 

  O pôr-do-sol colore o céu com cores vibrantes e quentes, mas o ar gelado que circula entre nós nos faz lembrar que ainda estamos no inverno. 

  Em aproximadamente vinte e cinco minutos, chegamos ao nosso destino. Assim que abro a porta, Tigre vem nos cumprimentar. Ele se enrola em uma das minhas pernas, não querendo largá-la de jeito nenhum.

─ Vamos, Tigre. Não seja tão inconveniente! Watanabe, pode entrar e se sentar em uma das almofadas da sala.  ─ ele apenas acena e se senta em uma das almofadas perto da televisão.

 A sala da minha casa é pequena, mas quente e confortável, então não creio que teremos problemas em estudar nela. Sendo assim, sento em frente à Watanabe, tirando a minha mochila e colocando-a ao meu lado. 

─ Certo, o melhor jeito de treinar para a prova é se exercitando. Eu vou te fazer perguntas e você me responde, sem consultar nenhum tipo de material.

 ─ Certo. 

 Começo a fazer as perguntas, principalmente sobre a parte envolvendo o relevo, que notei ser a que o Watanabe tem mais dificuldade. Como esperado por mim, ele respondeu todas as perguntas corretamente sem hesitar.

─ Era o que temia... ─ falo, enquanto coço minha própria cabeça. 

─ O quê? Eu não acabei de acertar todas as questões? ─ ele me pergunta, confuso.

─ O seu problema não está em saber a matéria e sim no seu nervosismo. Watanabe-san, não adianta saber tudo e ficar nervoso na hora da prova, você provavelmente vai ter outro branco.

─ Eu sei... ─ ele suspira profundamente. ─ Mas não importa o que eu faça, não consigo me manter calmo. Estou tranquilo com relação as outras provas, mas essa está me tirando a paz... 

─ Certo. Tive outra ideia. Vou te ensinar um exercício de respiração, ele age como um calmante natural. 

─ O quê...? Eu preciso estudar mais e não fazer yoga!

─ Fique quieto! Você já é capaz de escrever uma tese em geografia, se duvidar! Vamos focar no verdadeiro problema. Ande, sente-se em postura ereta. 

Ele não fala mais nada e apenas me obedece.  

─ Feche os olhos e inspire o ar por dez segundos. ─ digo. ─ Agora, quando for expirar o ar, pode deixar os ombros caírem. E depois comece tudo de novo por mais três vezes. 

─ É, até que não é tão ruim... ─ ele diz, após finalizar o exercício.

─ Esse é o exercício mais básico para treinar a respiração. Pode parecer algo bobo, mas realmente ajuda. Tente praticar todo dia até a prova, principalmente depois de estudar, quando você sentir sua cabeça doendo de tanto ter lido. 

─ Certo, Ootsuka-sensei! ─ ele sorri e tira o cabelo da testa, deixando seus olhos brilhantes à mostra.

 Olhos brilhantes? Minha própria consciência me ironiza. Tudo por causa desse garoto! Que carma... 

 

 

 

─ Não tem problema, eu vou embora a pé. 

─ T-tem certeza? Sua casa é longe e é perigoso essas horas...

─ Não se preocupe comigo. Qualquer coisa, tenho certeza de que você virá para me resgatar.

─ Ei, não fique contando com isso! ─ falo seriamente, mas acabo dando uma risada. 

Acompanho Watanabe até a saída, dando mais recomendações para a prova. 

 Desejo sinceramente que ele se dê bem.