Capítulo VI

 

 

Os galhos congelados da árvore estalavam e enfim caíam sobre os homens devido aos estrondos sucessivos. Siegfried segurava sua espada em meia-bainha. Olhava para todos os lados, mas não sabia ao certo de onde vinham os rugidos. Tqir já estava pronto para atacar, contudo também não sabia quem, ou para onde precisava mirar. 

Tudo que conseguiam fazer era ficarem plantados sob a árvore que haviam usado para descansar, ouvindo os rugidos e estrondos se aproximarem, lentos, irregulares. 

O vento soprava forte vindo do norte, jogando neve para todos os lados, atrapalhando ainda mais a visão dos espadachins. Estavam de costas um para o outro, na esperança de cobrir os setores de visão de forma mais eficaz. Apesar disso, nada aparecia ao seu redor.

Mais um rugido, dessa vez muito próximo. Próximo demais.

— O que em nome de Hel é essa porra? — perguntou Tqir, limpando o rosto sujo de flocos de neve.

— Como vou saber? 

— Ora! Você está nessa merda congelada a mais tempo que eu e inclusive já roubou o anel desse pessoal da névoa! — exclamou o cavaleiro vermelho, dando um cutucão com o pomo da espada nas costelas desnudas do companheiro. — Então é meio que sua obrigação saber o que é essa droga que fica rugindo como se fosse tentar nos devorar a qualquer instante.

Siegfried deu de ombros e soltou uma risada.

— Provavelmente só tive sorte de não ter cruzado o caminho do monstrengo — tirou a espada da bainha por completo. — Prepare-se bem Tqir, porque essa merda não deve ser brincadeira não.

A terra começou a tremer com mais intensidade. A neve presa nos galhos secos e sem vida da árvore caía sobre os cavaleiros, que permaneciam como estátuas. O cavaleiro vermelho sentia o frio penetrar a armadura, mas não vacilava nem por um momento, afinal qualquer erro poderia ser fatal naquela situação.

Foi aí que conseguiram ver no horizonte: um gigantesco dragão azul-escuro, aproximando-se lentamente em direção aos espadachins. Suas enormes presas negras podiam ser vistas, com cadáveres apodrecidos e congelados grudados nelas. Possuía um terrível corte avermelhado no olho esquerdo, o qual aparentemente tirou sua visão.

Quando pôs o olho na criatura, Siegfried reconheceu de imediato quem era. Esboçou um sorriso e declarou ao seu companheiro.

— Parece que temos o camarada Nidhogg como nosso convidado hoje, Tqir — balançou a espada com uma mão, fazendo movimentos circulares. — Agora fico me perguntando como ele veio parar aqui. Ele não fica no Portal de Helheim comendo os maiores criminosos do cosmo e toda aquela história?

Também gostaria de saber, pensou o cavaleiro vermelho. Seria isso obra dos Filhos da Névoa? Era o mais provável, afinal eles foram roubados uma vez, claramente não queriam que tal coisa acontecesse de novo. Tqir suspirou e agarrou com força sua espada.

Nenhum dos dois atacou. Ficaram observando até que distância o dragão chegaria. Quem sabe conseguiriam atacar de forma eficiente caso o mesmo chegasse perto o suficiente. No entanto, por algum motivo, Nidhogg parou, suas garras esmagando a neve, e ficou os encarando por bastante tempo.

— O que ele está fazendo? Resolveu descansar no meio do caminho? — revirou os olhos. — Tenho que dizer, desde que matei Fafnir esses dragões ficaram mansinhos e cagões demais. 

— Ao invés de falar algo que irrite aquela criatura, que tal ficar em silêncio e esperar, Siegfried? — o cavaleiro vermelho cutucou o companheiro com o cabo da espada. Encarava friamente o monstro a frente. — Droga, poderia ser tudo mais fácil, mas não, as coisas sempre têm que piorar.

O dragão abriu a boca, fumaça começava a sair de dentro dela. Entretanto, não atirou bolas de fogo ou coisas do gênero. Apenas baforou um ar quente e em seguida, bateu com uma das patas no chão, fazendo tudo tremer. 

Um galho podre da árvore onde se abrigavam caiu e acertou Tqir na cabeça. Praguejou, pois se estivesse com o elmo não teria sentido a dor que lhe acometia naquele momento. Siegfried se descuidou e tornou a olhar para o companheiro. Um erro crucial.

Nesse pequeno espaço de tempo em que se descuidaram, Nidhogg avançou e logo pairava sobre suas cabeças. Suas asas negras pareciam furadas e rasgadas, mas ainda serviam o seu propósito. 

Dessa vez, o monstro não baforou apenas. Do interior de sua gigantesca boca, uma bola de fogo saiu, rasgando o ar em direção aos espadachins, assustados com a incrível velocidade do dragão.

Conseguiram desviar por muito pouco, cada um se jogando para os lados, com as emoções à flor da pele. Tqir suava frio, ofegante. Secou as gotículas de suor que escorria em sua testa com as costas da mão. Siegfried parecia calmo por fora, mesmo após sua espada ter sido arremessada longe quando fugiu do ataque de Nidhogg.

A enorme bola de fogo pulverizou a árvore, e só quando sobrou apenas cinzas, o ar se congelou, formando um pilar de gelo no local.

— Que porra aconteceu ali?! — Exclamou Tqir o mais alto que pôde para o careca. — Alguma explicação?!

O companheiro não respondeu. Girou para o lado, em direção a sua espada quase enterrada na neve. Nidhogg foi mais rápido e pisou na arma ficando cara a cara com o homem. Aproximou o rosto o máximo que pôde e baforou na cara de Siegfried.

— Eu acho que tem um cara preso no seu dente, meu parceiro — apontou timidamente para presa do dragão, quase maior que ele. A criatura inclinou a cabeça. — É, bem ali atrás...

Com uma força descomunal, arrancou a lâmina presa sob Nidhogg, fazendo-o vacilar por um instante, o suficiente para que o homem conseguisse cortar um dos dedos da fera.

Deu uma pirueta para trás e se posicionou para atacar, com sua espada erguida na altura dos olhos. Semicerrou-os e suspirou, enquanto via a criatura rugir de dor e raiva.

Tqir correu para o lado oposto de Siegfried e se pôs atrás do dragão azul. Com um corte vertical, acertou-lhe a cauda, a qual bamboleou e o acertou, fazendo com que fosse arremessado contra uma rocha congelada. Sentiu uma dor estonteante nas costas, e pensou ter quebrado algumas costelas naquele momento.

Filho da puta de merda, xingou o cavaleiro vermelho. Sua visão ficou embaçada por alguns segundos e quando a mesma retornou, viu Siegfried cortando ao meio uma bola de fogo que vinha em sua direção.

 Há alguns anos quem estaria no chão seria eu, não você, Tqir — o careca comentou, dando a mão para ajudar o cavaleiro lagarto levantar. — Mas é aquela história, dias de lutas, outros de glória. No seu caso vai ser só lutas mesmo...

— Cale a boca, seu careca do cacete — resmungou Tqir, com a mão na costela. Sentiu sangue escorrer por dentro da armadura no local onde fora atingido pela fera gigantesca. Cuspiu uma pequena quantidade de sangue e em seguida recolheu a espada. — Só porque você cortou uma bola de fogo não significa que vai sobreviver no final.

Siegfried deu de ombro, sorriu e balançou a espada algumas vezes, provocando Nidhogg para que viesse ao ataque. Já Tqir, bem, ficou apenas se concentrando em se manter de pé e em posição. 

O dragão levantou voo, e desceu como uma flecha em direção aos guerreiros, com suas garras prontas para fatiar ambos. Não conseguiu. Siegfried empurrou seu companheiro a tempo, fazendo com que o monstro errasse o golpe e acometesse com força no chão, abrindo uma cratera no local.

Fumaça, pedra e gelo voaram para todos os lados. O rugido aterrorizante da criatura ecoava por todo o local enquanto a nevasca parecia ganhar cada vez mais força. 

— Levanta, Tqir — ajudou mais uma vez o homem a se erguer. Viu que já estava muito pálido e parecia estar sangrando em demasia. — Dragão filho da puta. Se esconde ali, eu vou dar um jeito de ao menos tirar esse merda daqui.

Tqir segurou o companheiro pelo ombro e o encarou.

— Eu não vou deixar você ir enquanto eu fico parecendo um velho moribundo — falou em voz baixa. Sentia dor até no simples ato da fala. — Isso aqui nem é nada. Só uma dorzinha qualquer e...

— Deixa dessa porcaria — soltou-se do cavaleiro vermelho e tirou de dentro do calção um pequeno frasco de vidro. Em seu interior, um líquido alaranjado. — Beba isso, então. É o sangue de Fafnir. Vai te dar força agora, mas depois vai fazer muito, muito mal.

O homem não pensou duas vezes. Pegou o frasco, abriu a rolha com os dentes, cuspiu-a para o lado e tomou tudo num gole só. Sentiu um surto de energia invadir o seu corpo de forma extraordinária, parecendo como se tivesse virado um novo homem de repente.

— Sabe, não era pra tomar tudo... — resmungou o careca. 

Tqir ergueu-se num pulo, empunhando a espada como vigor de anos atrás. Respirou fundo e sentiu o cheiro de enxofre que exalava das narinas do dragão. O frio já não o incomodava mais, muito menos a dor. Tudo o que ele precisava ver, ouvir e sentir era a criatura na sua frente.

De dentro da fumaça surgiu mais uma esfera cintilante feita de chamas. Dessa vez quem a cortou foi Tqir com extrema facilidade. Arremeteu contra o dragão com força e precisão. Com apenas dois golpes fez uma espécie de xis no peito da fera que gritou agonizada, embora não aparentasse ter sentido os efeitos do golpe. 

Logo após o ataque do Cavaleiro Lagarto, Siegfried seguiu. Sua lâmina brilhou num verde intenso e com uma maestria de invejar muitos espadachins, acertou o pescoço da fera com um golpe horizontal, porém superficial, fazendo-a recuar um pouco.

Nidhogg soltou um rugido ensurdecedor, obrigando os guerreiros a se afastarem. Voltaram a se agrupar lado a lado, preparados para o próximo golpe da criatura, que avançou com ímpeto mais uma vez, suas garras prontas para destroçá-los.

Os dois homens se entreolharam e após ambos confirmarem com a cabeça, levantaram suas espadas na altura dos olhos, apontadas para o dragão.

No instante em que as garras os rasgariam por completo, os espadachins sumiram da frente de Nidhogg, reaparecendo de súbito atrás, praticamente na mesma posição que estavam antes. Contudo, quem não parecia muito bem era a horrenda criatura.

Dezenas de cortes começaram a surgir rasgando todo o seu peito. Sangue jorrava com intensidade para todos os lados, tingindo a neve de negro. Tentando escapar, Nidhogg levantou voo, mas logo aterrissou por não conseguir manter a altitude devido aos ferimentos. 

Por fim, caiu, deitado no chão e arfando.

— Finalize ele — disse o careca enquanto dava as costas para Tqir. — Vou procurar a bainha da minha espada que deve estar por aqui...

O Cavaleiro Lagarto revirou os olhos e meneou a cabeça, mas ainda assim foi até o dragão caído. O monstro o encarava com seu único olho bom, de forma séria e ameaçadora.

— Não deveria ter acabado assim, meu caro. Não havíamos vindo para lutar com você. Por Hel, você nem deveria estar aqui — começou Tqir, sentando em frente ao dragão, sua voz rouca. — Eu sei que consegue falar, Nidhogg. Quase todos os dragões conseguem. Contudo não ouvi você falar até agora.

A fera azul escura permaneceu em silêncio absoluto, soltando baforadas de ar quente de suas narinas e fitando o espadachim com ódio. 

— Deve estar se perguntando o porquê de eu estar falando isso, não é? Sabe, eu já vivi bastante coisa, ainda mais por estar nesse ramo onde todos morrem com facilidade e cedo demais — pausou por um momento, embainhou a espada e tossiu. O efeito do frasco dado por Siegfried parecia estar passando. — E nunca vi dragões saírem de seu habitat natural, nunca. Diga-me então, como veio parar aqui. Se fizer isso, conseguirei o mandar de volta para o seu devido lugar.

O dragão azul-escuro estreitou os olhos, pensando se realmente deveria acreditar nas palavras do guerreiro. Costumava ser ele a brincar com suas vítimas e fazer demandas e propostas, as quais nunca cumpria. Mas agora estava em uma situação inversa, onde não sabia como agir.

Abriu a boca, e naquele instante Tqir pensou que o monstro falaria algo. Entretanto, tudo que o mesmo fez foi tentar soltar uma das suas bolas de fogo, sem sucesso. 

— Por que não dá o braço a torcer, Nidhogg? Você quer realmente proteger seja lá o que for que lhe trouxe aqui para que apenas fosse morto por algum invasor poderoso? — o cavaleiro vermelho começava a sentir as dores com cada vez mais intensidade, mas conseguia disfarçar bem exteriormente. — Saiba que caso você tivesse nos derrotado, alguém muito pior passaria por aqui, e eu não estou falando de, sei lá, Tyr, Mani, ou a própria Skadi.

O silêncio continuou. Siegfried voltou com sua espada embainhada e com uma expressão confusa ao perceber que Nidhogg ainda estava vivo.

— Quer me explicar o que você está fazendo? — perguntou o careca enquanto dava duas pauladas com a bainha na cabeça do monstro que apenas rosnou de volta, mas nem se mexeu. — Pelo que estou percebendo, ele está respirando, e não sei se você sabe, mas quando alguma coisa está viva, ela respira e tudo mais...

— Muito engraçado, Sieg. Você tem uma terrível mania de matar tudo e todos e nem saber o que de fato está acontecendo. Já parou para pensar sobre quem trouxe esse monstro para cá? 

— E precisa pensar nisso? É óbvio que foram os Filhos da Névoa. Eles são malucos, Tqir, querem proteger o anel a todo custo — sentou-se ao lado do companheiro. — Quem mais poderia ter trazido esse dragão psicopata até aqui senão eles?

— Não foram os... — Uma voz grave e sombria ecoou vinda do dragão, o qual começou a tossir sangue negro — os Filhos da Névoa.

— Viu só, Sieg. Bastou um pouquinho de paciência e já consegui que ele me revelasse alguma coisa. Vamos lá, Nidhogg, nos diga um nome, eu sei que você consegue — disse animado, apesar das dores e a costela quebrada.

— Quem me trouxe até essa merda de lugar...

Como se uma espécie de força maior estivesse atuando naquele momento, o dragão azul escuro começou a engasgar, procurando por ar desesperadamente. 

No primeiro momento, os espadachins pensavam que a criatura estava apenas tendo um simples ataque, no entanto, quando viram a espuma sair da boca do monstro e os espasmos acontecendo com fervor, encararam aquilo com surpresa.

— O que raios está acontecendo com ele? — perguntou Tqir, desacreditando que Nidhogg definhava aos poucos. — Por que está acontecendo isso, merda?

— Magia de restrição, meu camarada — comentou despreocupadamente Siegfried, enquanto via os últimos suspiros do monstruoso dragão. — Quando o acometido pela mágica tenta revelar algo que quem lançou a mágica não quer que seja revelado, acontece alguma espécie de punição, podendo ser inclusive a morte.

— Pensei que tal encanto havia sido banido — o cavaleiro vermelho concluiu, tentando se levantar. 

Lembrou-se que houve uma época há muito tempo em que as magias mais assustadoras e cruéis foram proibidas de serem aprendidas e todos os escritos de tais encantamentos fossem destruídos. Embora parecesse que tal ação fosse realmente por querer preservar o bem-estar de todo o cosmo, a verdade por trás daquilo era o simples fato de que o Pai de Todos não queria que seus inimigos utilizassem as famigeradas magias contra ele.

Feitiços como os de Restrição, os de Torturas e os de Necromancia foram completamente banidos, com todas as suas escrituras destruídas. Também foram dizimados todos os usuários e mestres das magias proibidas, afim de evitar que os ensinamentos fossem passados através da comunicação.

— Na teoria foram. Contudo, Nidhogg era uma criatura anciã, criada nos tempos dos Primeiros Seres, numa época em que tudo era permitido — disse o careca, cutucando o cadáver com a bainha da espada. — Provavelmente o feitiço foi lançado ainda naquele tempo. Pelo menos essa é a hipótese mais plausível na minha humilde opinião, afinal quem ainda saberia uma magia tão velha?

— Os Filhos da Névoa? Se pararmos para pensar, eles têm contato com as Damas das Ondas, ou seja, com seres muito antigos e detentores de muitos segredos — opinou Tqir, xingando baixinho ao colocar a mão na costela ferida. — E se o que estou falando aqui agora for verdade, não quero nem imaginar o que vamos encontrar quando chegarmos nos templos desses filhos da puta.

Siegfried ficou por um tempo em silêncio, encarando o horizonte, pensativo. Olhava para os enormes picos gélidos onde Skadi provavelmente estava se banqueteando à espera de seu retorno com o anel. 

Entretanto, as coisas que pareciam não serem tão difíceis assim tornaram-se incrivelmente complicadas. Com seu companheiro ferido do jeito que estava, precisariam gastar horas preciosas para recuperar as forças. Horas preciosas demais, que valiam suas cabeças.

Além de precisarem descansar, necessitavam percorrer mais um longo caminho até o suposto local onde os Filhos da Névoa permaneciam escondidos. Depois de todo o trabalho de apenas chegar lá, teriam que dar um jeito de sair com o Niflungar e entregar para a Rainha de Gelo.

O espadachim careca que parecia jamais sentir frio virou para o cavaleiro vermelho, e com uma expressão descontraída, disse:

— Segundo os meus cálculos, estamos bem fodidos.

 

 

***

 

 

— Majestade — Rozzor entrou no pequeno aposento onde Hel lia tranquila.  O senhor Erallyub deseja falar com a senhora. Devo deixá-lo entrar?

Hel parecia perturbada por ter sido incomodada durante sua leitura da famosa obra de Tyr, “A Guerra e a Esperança: O porquê de não poderem andar lado a lado”. Tal livro era um dos que mais interessavam a Rainha dos Mortos, pois o Aesir da guerra tinha argumentos muito fortes em relação àquele assunto. 

E era exatamente por gostar tanto daquela leitura que Hel parecia estar ainda mais aborrecida. Fitou o servo cinzento de soslaio, e após colocar o livro sobre a mesinha de ossos, deu permissão para que o elfo negro adentrasse o local.

— Anuncio o Rei dos Elfos Negros, Erallyub sep Aestarep — disse Rozzor num tom firme, mas baixo. — Curve-se diante da Senhora dos Mortos, Protetora das Almas, e Rainha de Helheim.

Fazendo o que lhe foi dito pelo homem cinzento, o elfo negro se curvou em reverência à Hel. Ficou algum tempo naquela posição, esperando a boa vontade da rainha o ordenar a levantar. Quando a mesma o fez, agradeceu secretamente.

Erallyub trajava uma grossa túnica de lã negra, com ricos bordados dourados nas mangas. Seus cabelos da cor de ouro mantinham-se trançados como na hora de reunião, e sua pele continuava tão negra quanto o céu noturno. Após limpar a poeira da túnica na área dos joelhos, pôs-se a falar:

—Desculpe-me por incomodá-la tão pouco tempo após nossa reunião, majestade — disse, seguindo em direção a um pequeno banquinho almofadado. — Posso me sentar?

— Não — respondeu friamente. — Fique do jeito que está, e agradeça por tê-lo recebido.

O elfo fitou a mulher, surpreso. Em sua mente, dizia a si mesmo que se fosse outro, teria tido o bom senso de deixá-lo sentar. No entanto, Hel não era o melhor exemplo de gentileza.

O rei negro ficou em pé ao lado do banquinho, seus braços jogados para trás em uma posição a qual ele considerava confortável e que não demonstrava medo da Rainha dos Mortos.

Ergueu o rosto e olhando para Hel de cima, disse:

— Tenho informações dos meus espiões posicionados nas estradas principais — falava com tamanha pompa que a enojava. Em determinado momento, a mulher dos cabelos brancos pensou em pulverizá-lo ali mesmo.

— E o que descobriram?

Erallyub mexeu a cabeça, tentando diminuir a tensão no pescoço dolorido. 

— Na região entre Asgard e Midgard, foram vistos estranhos movimentos. Encontraram uma vila completamente dizimada, com cadáveres destroçados por lobos — reportou num tom calmo.

Hel revirou os olhos. Pensou que o elfo lhe traria alguma espécie de notícia interessante, mas tudo que parecia lhe ter trazido era um bando de baboseiras sobre uma vila ridícula nas beiradas dos mundos. Ateve-se ao silêncio e ao olhar de reprovação. 

Já Erallyub, ao contrário do esperado, sorriu, como se estivesse prestes a revelar algo muito interessante,

— Não pense que essas sãos as únicas informações, majestade. 

— Então pare de ficar fazendo rodeios e porcarias de suspenses — retrucou irritada, acariciando o livro que estava lendo. — E conte o que mais descobriram.

Erallyub sentiu a voz da rainha cortar o ambiente como uma afiada lâmina, destruindo toda sua pompa e senso de superioridade. Queria muito poder ensinar uma lição a ela, mas, após descobrir que a mesma possuía um dos artefatos de Ymir, passou a ter muito mais medo do que respeito por ela.

— Quando meus homens chegaram no vilarejo, não encontraram apenas os cadáveres dos habitantes, mas também dos próprios lobos — começou a andar de um lado a outro do aposento escuro e frio. Uma única vela jazia sobre a mesinha de ossos de Hel, iluminando pouco o ambiente. — Foram todos cortados com maestria, a maioria em pontos fatais e com apenas um simples golpe. Nunca meus homens viram tamanha habilidade com a lâmina contra feras selvagens e imprevisíveis.

A Valquíria do Infinito, pensou Hel. Era a hipótese que fazia mais sentido, afinal quem mais teria tal proficiência com a espada senão ela? Contudo, por que ela se daria o trabalho de aniquilar lobos de um vilarejo já destruído pelos mesmos? Havia algo de errado naquilo, a Valquíria nunca fora nem um pouco altruísta.

Ficou tamborilando com os dedos sobre a capa de couro do livro. Refletia sobre toda a situação, sobre os motivos pelos quais a Valquíria possa ter feito tal ação. Não chegou a conclusão alguma. Tudo aquilo não condizia com a personalidade da mulher.

Após um longo silêncio em pensamentos, Hel se pronunciou:

— Tenho suspeitas de quem possa ter sido, embora algumas peças não se encaixem da devida forma — disse. — Há mais alguma informação?

— Na verdade, sim — Erallyub respondeu prontamente, parando ao lado do banquinho mais uma vez. — Antes de meus homens deixarem o local, viram uma mulher de cabelos brancos e de armadura prateada, com um olho negro gravado na placa do peitoral. Estava acompanhada de dois homens altos, vestidos de negro, e segundo informações, eram exatamente iguais.

— A Agitadora? — questionou Hel, surpresa. A descrição batia perfeitamente. A mulher era Skögul, a valquíria cega. Porém, mesmo sabendo a quem o elfo se referia, nada fazia sentido.

O elfo negro fitou a Rainha dos Mortos e pigarreou:

 Agitadora? Desculpe-me a ignorância, majestade, mas quem seria ela?

— Agora consegue ver o porquê do meu mal humor, Rei Erallyub? É por causa de perguntas como essa que me sinto irritada — socou a mesinha, fazendo com que o livro pulasse levemente, mas sempre com um sorriso no rosto. — Talvez se o senhor gastasse mais tempo de sua vida lendo sobre o cosmo ao invés de reclamar de tudo com seu amigo anão, saberia quem é a Agitadora.

O silêncio preencheu o ambiente, denso. O elfo negro abaixou a cabeça, e após ponderar por um instante, curvou-se pedindo desculpas para Hel. 

— Como sou uma rainha muito compreensiva e que adora passar conhecimento para os menos afortunados, lhe direi quem é — iniciou o discurso com desdém. Virou a face normal de seu rosto para o elfo. Cruzou as pernas, e como o vestido que trajava era aberto na lateral da saia, o movimento revelou suas pernas desnudas e brancas.

— Agradeço a oportunidade de aprender, majestade — curvou-se mais uma vez.

— A Agitadora é uma das valquírias mais novas do exército de mulheres guerreiras de Odin. Sua habilidade com adagas só é superada pelo seu potencial mágico aparentemente infindável — pousou as mãos no joelho. — Ela é poderosa, e não se deve deixar que sua natureza amigável o engane. Ela é calculista, pensa antes de agir, sempre cautelosa. 

“Ela sempre analisará todas as possibilidades, e sempre escolherá a melhor delas, isso é um fato um tanto perturbador, pois isso a torna quase invencível. Agora vem a parte que eu menos suporto de tudo isso, mas que também acho extremamente interessante: ela é cega” — soltou uma risada escarnida. 

Erallyub arregalou os olhos, atônito. 

 É, meu caro. Você não ouviu errado. Ela não tem visão alguma e mesmo assim é incrivelmente difícil de lidar com ela.

O elfo negro meneou a cabeça incrédulo com as explicações da Rainha dos Mortos. Não pelo fato da mulher ser cega, afinal bastava alguma espécie de magia que lhe desse uma visão enfeitiçada e ela conseguira fazer tudo normalmente. Ficou preocupado com o fato de que ela fosse incrivelmente poderosa com mágica, o que a torna um alvo perigoso demais até mesmo para seus irmãos elfos.

— Certo, majestade. Consegui compreender o quão forte essa valquíria é, no entanto, não houve uma explicação para a alcunha dada a ela. Seu nome não é Agitadora, creio eu.

— Chamam-na de Skögul. Já a alcunha nunca fora revelada o motivo por trás da mesma. É isto que odeio nos livros — descruzou as pernas, apenas para cruzá-las novamente após alongá-las. — Os malditos autores jamais nos descrevem as partes mais interessantes, não concorda?

Erallyub apenas confirmou com a cabeça. 

— Enfim, chega de lições de história, certo? — Disse. — Diga-me o que seus homens viram.

— Reportaram a mim dizendo que a mulher e seus dois companheiros seguiam os supostos rastros que encontraram, os quais levavam para o vilarejo massacrados pelos lobos.

— Estão atrás de quem massacrou as feras — concluiu Hel. — Minha suspeita acaba de se confirmar e isso implica em um encurtamento do nosso precioso tempo.

— E qual seria essa tal suspeita, majestade?

Hel levantou-se e apanhou o livro. Seguiu em direção a estante de madeira velha, onde vários outros livros de aparência acabada estavam. Guardou a ótima obra de Tyr e só então continuou o assunto, ainda observando a estante.

— Estão procurando por alguém — respondeu num tom suave. — Agora quero que pense quem em todo o cosmo conseguiria matar todos esses lobos de forma precisa e rápida, além de ser perseguido por uma valquíria e dois outros acompanhantes de negro, os quais claramente são Hugin e Munin.

 A Valquíria do Infinito, tem que ser ela. No entanto, mesmo se de fato for ela, o que estaria fazendo naquele vilarejo e o porquê de ter aniquilado todas as feras que lá estavam residindo?

Erallyub tinha certa razão em perguntar tais coisas, aquilo realmente era intrigante. Ela deve estar querendo seguir para cá, mas as passagens estão todas bloqueadas... ponderava Hel, enquanto passava a mão nas prateleiras empoeiradas de sua estante de livros.

Precisava descobrir o plano de Zero depressa, ou poderia botar tudo a perder num piscar de olhos. A mulher era perigosa, fatal e inteligente. Com certeza a Valquíria já possuía algum plano para invadir Helheim e confrontar a Rainha dos Mortos.

Tal pensamento fez um calafrio percorrer a espinha de Hel. Não queria ter que lutar contra a discutivelmente mais poderosa guerreira do cosmo despreparada. Precisava de tempo, para ao menos conseguir reunir mais algumas relíquias capazes de enfrentar em pé de igualdade o Coração do Caos.

Começou a se perguntar para onde ela poderia estar indo. O portal de Sverthalfheim para Helheim estava bloqueado há muito, e por mais poderosa que a Valquíria fosse, não conseguiria desativar a magia que o rodeava.

A estrada principal através do portal de Midgard também estava bloqueado por feitiços, além de ter conseguido uma espécie de contrato com sua irmã Jormungandr para que impedisse qualquer um de ir para Helheim.

A única alternativa que sobrara era Niflheim. O Reino do Gelo Primordial é o único lugar onde o portal ainda funciona de forma correta. A Valquíria seria tão audaciosa a tal ponto de invadir um reino inteiro de gigantes?

Hel virou-se para o elfo negro.

— Sim, pode ser Zero, ou Volan, ou qualquer outro maldito nome que deram a ela — resmungou. — E se for, precisamos nos apressar, meu caro, e muito. Também precisamos ajudar os seus perseguidores para que eles alcancem a Valquíria e pelo menos a atrase um pouco mais.

— Sim, majestade. Mandarei um mensageiro para entrar em contato com os perseguidores da Valquíria — inclinou-se levemente como se prestasse uma reverência menos exagerada. — Agora, em relação as relíquias de Ymir. Os maiores estudiosos de nosso povo estão se dedicando ao máximo que podem para encontrar quaisquer pistas sobre o suposto artefato.

— Não quero que apenas se dediquem, quero resultados — disse num tom cortante, virando a parte esquelética e morta de seu rosto para o elfo negro. — Espero que tenha algum para me apresentar.

O Rei da superfície de Sverthalfheim sorriu.

— Claro que temos resultados, majestade — retirou uma espécie de pergaminho de dentro da túnica. Desenrolou o papel e começou a lê-lo. — Segundo os relatórios, foram encontradas escrituras muito antigas nas ruínas dos Elfos Brancos. Tais escrituras citam um bracelete completamente feito de caos.

Indo até Eurallyub, a Rainha dos Mortos questionou:

— Um bracelete? Interessante. Qual seria sua utilidade, já descobriram?

— Em partes, sim — hesitou por um curto momento, mas logo pôs-se a falar novamente. — Todos os documentos sobre o artefato são muito vagos ou incompletos. Isso dificulta a leitura. Além disso, os elfos brancos utilizavam uma linguagem diferente da nossa, então precisamos traduzir todos os textos.

Apesar de Hel já saber de algumas das coisas que o rei falava, ficou em silêncio e deixou-o divagar um pouco. Precisava desse tempo para raciocinar algumas coisas, como por exemplo, imaginar quais seriam as outras relíquias.

Ficou parcialmente impressionada por saber que o artefato dos elfos negros era um bracelete, apesar de não saber ao certo o porquê. Além disso, estava intrigada para saber qual era a utilidade do mesmo quando fora de seu mundo de origem.

Lembrou-se que nunca viu o que o anel de Niflheim fazia fora de lá, pois nunca teve a chance de retirá-lo das mãos dos Filhos da Névoa. O culto era muito bem protegido pelo próprio artefato e aquilo incomodava-a profundamente.

Também não teve a chance de descobrir o que a sua própria relíquia faria ao certo fora de Helheim. Recebera o item ainda quando pequena, mas só descobriu sua verdadeira utilidade quando se sentou pela primeira vez no Trono de Carne e Osso.

Era o Helgang, uma das relíquias mágicas de Ymir que controlava o fluxo de almas do mundo dos mortos e absorvia seus poderes. Tal objeto estava encrustado sob a pele de Hel, em sua metade mórbida e horripilante. Jamais conseguiu identificar o que era aquilo de fato.

A Rainha dos Mortos voltou para a cadeira em que se sentava anteriormente e desabou sobre ela mais uma vez.

— Termine logo a tradução — disse. — Descubra o máximo que conseguir o mais depressa possível, e volte aqui apenas quando já possuir o bracelete em mãos. Até lá, mantenha-me informada por projeções.

— Sim, minha rainha — prestou mais uma reverência, e após ajeitar sua túnica, deixou o local.

O silêncio voltara para o aposento e aquilo era algo para ser agradecido. Hel ficou ali por um bom tempo ponderando sobre toda a situação e tudo que ainda poderia acontecer de errado caso não cuidasse de todas as variáveis.

Contudo, não importava o quanto pensava, o quanto refletia, ou o quanto xingava. Em nenhum momento conseguiu encontrar uma solução perfeita para impedir a Valquíria, e isso a irritava demasiadamente, mesmo ela sabendo que ninguém conseguiu tal feito.

Como pode existir alguém tão fora da normalidade do cosmo? Isso não faz sentido algum mesmo ela possuindo o coração do Lorde Ymir...

Por mais que Hel questionasse tudo, nada conseguia explicar o porquê de o Coração do Caos ter parado nas mãos da Valquíria do Infinito. A relíquia era algo do mais poderoso e primeiro Gigante do cosmo, mas mesmo assim acabou indo para Asgard, o mundo dos Aesir. 

Como se já não bastassem todas as perguntas, ainda procurava entender como Odin conseguiu implantar o Coração em um ser tão frágil quanto a Valquíria. Segundo todas as escrituras e textos antigos que Loki forneceu, o artefato é tão poderoso que nem mesmo Odin, Vili e Vé após assassinarem Ymir conseguiram conter o poder, e, portanto, supostamente deram um fim a relíquia.

Sendo assim, se as escrituras fossem verdadeiras, o mistério apenas se intensificaria ainda mais. Nem os seres mais influentes e teoricamente mais poderosos conseguiram se apoderar do Coração, então como uma valquíria conseguira?

Hel socou a mesinha de ossos ao seu lado e bufou, indignada com sua falta de conclusão. 

— Maldição, o que aconteceu de fato?

Esparramou-se na cadeira, cruzou as pernas, e ficou por mais um longo e silencioso tempo refletindo, na esperança de encontrar uma lógica para tudo aquilo.

E mesmo assim, no fim, não teve sucesso.

 

 

***

 

 

A neblina começava a aparecer lentamente, junto com uma leve brisa. Siegfried carregava Tqir apoiado no ombro para que recuperasse um pouco as forças após a utilização do sangue de dragão.

Ambos descansaram por meia hora antes de prosseguir, mas tal intervalo claramente não seria suficiente para que o cavaleiro vermelho se recuperasse. O homem permanecia com a costela quebrada e armadura completamente amassada graças aos golpes de Nidhogg, e se não bastasse, os efeitos colaterais da bebida de Siegfried começavam a castigá-lo.

— Sabe, você anda bem pesadinho, Tqir, por acaso engordou?

— Muito engraçado — tossiu. Sangue escorreu pelo canto da boca. — Estou mais magro que você, principalmente agora que quase nem tenho sangue algum.

— Não precisa dramatizar tanto. Aposto que você tem bastante sangue ainda, amigo — olhou para o companheiro que voltava a tossir e viu ainda mais sangue sendo cuspido. — Viu, está cuspindo sangue para caralho ainda, então tá tudo dentro dos conformes.

Tqir ficou em silêncio, apenas aguentando a dor que parecia lhe cortar ao meio a cada segundo que passava. Estava sangrando demais, a tal ponto que deixava uma trilha atrás de si, pintando a neve com um escuro vermelho, quente, que esfumaçava ao encostar na superfície gelada.

Precisavam chegar depressa nos Filhos da Névoa. Quem sabe conseguiriam algum tipo de cuidado ao chegar lá, por mais que odiassem o espadachim careca. 

Apesar de serem reclusos de tudo e todos, os que cultuam as Damas das Ondas possuem a fama de serem altruístas quando necessário, coisas que teoricamente foram ensinadas pelas deusas cultuadas. Portanto, contava com essa suposta qualidade para salvar sua vida, mesmo sabendo que seria uma aposta muito ruim.

Subiram uma elevação, indo em direção ao norte. Pedras cobertas de gelo atrapalhavam o caminho, e hora ou outra Siegfried tropeçava em algumas delas devido a visão prejudicada crescentemente pela neblina, a qual ficava ainda mais densa.

No topo, o vento estava um pouco mais intenso. Fazia mais frio também. A nevasca parecia cortar e queimar a pele.

Os espadachins tentavam enxergar o que havia a mais de dez metros à frente, contudo não tiveram sucesso. A incapacidade de observar as coisas à frente começava a se tornar bastante irritante, e muito perigosa. Não conseguiriam saber quando poderiam ser atacados, pois além da visão prejudicada, a audição não estava sendo muito útil graças ao barulho da nevasca e da ventania constantes.

— E então, alguma ideia se estamos no caminho certo? — perguntou Tqir, que estava sendo colocado no chão. — Espero que sim, afinal não sei se vou viver por muito mais tempo.

— O covil dos fanáticos fica bem ao norte e, até onde sei, estamos indo para lá — deu de ombros. — Também tem essa neblina chata que fica cada vez mais densa, o que é mais um sinal de que estamos no caminho certo. 

— Faz sentido, de fato — grunhiu, colocando a mão na costela quebrada. — Mesmo estando na direção certa, ainda falta encontrar a maldita entrada do lugar. Creio que você sabe como, afinal já entrou e saiu de lá.

— Sinceramente, encontrar a entrada é fácil, basta seguir uma melodia suave que começa a surgir quando estamos nos aproximando — apontou para o norte, como se quisesse mostrar algo que obviamente não poderia ser visto. — Tem sempre alguém no portão que fica cantando algumas canções do próprio culto. Chega a ser irritante.

— Tudo bem, é fácil achar o portão, ótimo. Mas se é tão simples achar, não deve ser simples entrar.

— Meu grande companheiro Tqir, sempre com as deduções no ponto! — exclamou, dando tapinhas no ombro mais do que dolorido do cavaleiro vermelho, que xingou de dor. — As canções não são apenas para bonito. Elas são feitiços poderosos que conjuram a névoa ao redor do local, os selos mágicos dos portões, e que controlam os monstros de neve nas redondezas. Portanto, para poder entrar, é necessário conseguir a permissão do Cantor.

Um cantor, num maldito mundo de gelo, eu não mereço isso...

O Cavaleiro Lagarto não era muito fã de nenhum “artista”, principalmente dos que cantavam. Sempre que ouvia sobre cantorias, lembrava-se dos poetas de Midgard que ficavam recitando baladas sobre terras distantes as quais nem mesmo os deuses eram capazes de chegar. Por mais que não gostasse dos deuses, dos seus comportamentos e arrogância, odiava ainda mais quem gostava de falar besteira.

Agora, como se já não bastasse a situação em que se encontrava, precisava ter que ouvir novas cantorias, provavelmente as quais falariam incontáveis idiotices. Tudo isso, sem nem ao menos considerar o fato de que também iria precisar de permissão de um cantor para prosseguir. É realmente o cúmulo da desgraça...

— Parece um pouco aborrecido — constatou Siegfried, fitando Tqir. 

O cavaleiro vermelho revirou os olhos e cuspiu mais um pouco de sangue. Depois, levantou-se com certo esforço e seguiu para o norte, descendo a elevação que acabaram de subir. Siegfried o acompanhou.

— Então, não vai dizer o que lhe aborrece?

 Cantores, meu amigo — declarou. Sua voz estava fraca, mas por algum motivo quando falou aquilo pareceu estar bastante capaz de xingar. — Esses malditos parecem se espalhar como pragas por onde quer que eu passe. Difamam os deuses sem qualquer temor, e dizem que existe apenas um ser todo poderoso no universo. Idiotas.

— Ora, Tqir — começou o careca, observando seus arredores a fim de evitar esbarrar em alguma coisa desagradável. — Nem todo cantor, poeta ou artista difama os deuses. Ferdinand Olohr por exemplo, um grande amigo meu, exalta os deuses e seus feitos constantemente, além de ser uma ótima pessoa.

— Então ele também é um idiota — disse. Tropeçou em uma pedra que apareceu de súbito na sua frente, a qual ele não enxergou devido a névoa densa. Xingou baixinho. — Entenda uma coisa, os artistas são idiotas. Manipulam as pessoas com suas canções para que acreditem no que lhes convém, seja para exaltar ou difamar deuses e povos.

Siegfried respondeu.

— Todos os seres do cosmo fazem isso, Tqir. Veja os deuses e gigantes, como, por exemplo, as próprias Skadi e Hel. Ambas estão nos manipulando para que façamos o que dizem porque será melhor para todos nós. 

— Ameaçar-nos não é manipular, é obrigar. Estamos sendo forçados a fazer o que elas ordenam, se não morreremos — disse, ríspido. — Os desgraçados acham que por serem deuses podem nos foder do jeito que acham melhor.

— Claro que podem, eles possuem o poder para isso. E você sabe tão bem quanto eu que o mais forte sempre vai sobrepujar o mais fraco — fitou o companheiro. — Sempre.

O cavaleiro vermelho ficou em silêncio. Siegfried tinha certa razão naquelas palavras. O cosmo era assim, sempre foi e continuará sendo até muito tempo depois que seu corpo virar pó. Mesmo assim, não era por isso que ele precisaria se contentar com a situação atual de não só da humanidade, mas também das outras raças que não fossem a dos Aesir e Gigantes.

Todos que não são malditos integrantes dessa guerra são considerados escravos e nada mais, falava para si mesmo, enraivecido. Desde que os Aesir passaram a dominar o cosmo e a guerra, nada foi igual. A escravidão tomou o lugar da liberdade, a morte tornou-se algo mais do que corriqueiro na vida de todas as outras raças, e a paz fora substituída pela guerra.

Quando lembrava disso, Tqir começava a pensar que talvez nem sempre as besteiras ditas pelos cantores faziam mal. O povo, no fundo, precisa saber que está sendo escravizado.

Mas então vinham as más recordações de cantores que ridicularizavam tudo e a todos de forma horrenda, como difamar reis e rainhas justos e humildes, ou até mesmo uma pequena nação, e isso fez o espadachim perder todo o respeito que poderia ter por eles.

O resto da descida foi completamente silenciosa, excluindo o som das rajadas de vento que cortavam o ar feito navalhas. A névoa sequer se desfazia um pouco devido ao vento, afinal era mágica, não algo natural.

Não demorou muito para que ambos topassem com um pequeno rio, onde a parte mais distante mantinha-se congelada, enquanto a mais próxima permanecia líquida.

Siegfried abaixou-se e jogou um pouco da água fria em seu rosto.

— É água mesmo, pode confiar — deu uma gargalhada, a qual ecoou por um tempo em meio ao desconhecido território. Fitou Tqir, que parecia perplexo com a ação do companheiro. — O que foi?

— Por que você jogaria um líquido desconhecido no seu rosto para testá-lo? — questionou, pondo a mão no rosto. — E se essa merda fosse algum ácido mortal ou coisa parecida?

— Eu estaria agora berrando de dor, nada demais — deu de ombros. — Lave o seu ferimento aqui, e depois vamos para o leste, há uma ponte por aqui que atravessa o rio.

E foi o que Tqir fez. Lavou os ferimentos com a água quase congelada, a qual até serviu como uma espécie de atenuante para a dor descomunal que sentia.

Quando terminou sua tarefa, seguiu para leste, pela margem do rio, junto com seu companheiro à procura da ponte. O lugar era apenas um amontoado de neve com algumas eventuais plantas baixas cristalizadas devido ao frio, uma paisagem nada empolgante. 

Logo, chegaram no destino: uma ponte de madeira velha e nada conservada. A maioria das ripas que constituíam a passagem estavam caídas e engolidas pelo rio. Os suportes já estavam desgastados, porém congelados. Isso só está de pé ainda porque congelou, senão...

— Está com medo de passar, ó poderoso cavaleiro vermelho? — zombou Siegfried. — Fique tranquilo, essa ponte pode não aparentar, mas aguenta um carregamento de algumas toneladas.

— E como sabe disso?

— Ora, foi assim que me pegaram, demorei demais para cruzar a ponte — respondeu como se fosse a coisa mais óbvia já dita. — Do nada, um cara muito grande, e gordo, apareceu correndo pela ponte. Ele me agarrou e utilizou um feitiço para que eu desmaiasse.

Tqir riu.

— Você foi pego por um gordo maluco?

— Muito engraçado — revirou os olhos, depois, começou a atravessar a ponte. — Se o gordo fosse normal, obviamente eu não teria sido pego por ele. Mas tinha algo estranho, era como se ele não fosse grande daquele jeito de verdade, não sei explicar.

— Claro, e eu sou o deus da luz, Sieg — quem soltou a gargalhada dessa vez foi o cavaleiro vermelho, mesmo sentindo as costelas doerem. Seguiu o careca pela ponte. — Pare de desculpas e aceite que foi derrotado de forma ridícula.

A passagem gemia e estalava à medida que os espadachins atravessavam. Por diversas vezes, Tqir pensou que seria seu fim, pois ou a ponte parecia que iria cair a qualquer instante, ou ele mesmo quase caía nos vãos onde outrora havia ripas, devido à baixa visibilidade.

No meio do caminho, Siegfried parou, fazendo com que Tqir esbarrasse em suas costas e quase caísse dentro do rio, se não tivesse segurado num pedaço quebrado de um dos suportes da ponte. 

— Por que parou assim de repente? — reclamou o cavaleiro vermelho. — Sabe que não dá para enxergar quase nada, então avisa quando for parar, caramba.

— Fica quieto — sussurrou o espadachim careca. Começou a puxar lentamente a espada da bainha. — E olha ali na frente.

Uma silhueta em meio a névoa permanecia parada no final da ponte. Não era possível identificar quem ou o que era aquilo, apenas sentir uma energia não muito amigável.

— Tem ideia do que seja aquilo? — perguntou Tqir num murmúrio. 

— Espero que não seja mais uma batalha. Não estou a fim de me desgastar mais ainda antes de chegar no templo dos Filhos da Névoa.

Uma canção começou a ser ouvida, no começo lenta e quase inaudível. Contudo, enquanto os segundos passavam, mais alto a canção se tornava.

 

A luz pode ser agradável

Mas a mesma engana

A escuridão é desagradável

Contudo é verdadeira

 

Tqir vestiu uma expressão sombria e bastante desagradável. Cuspiu para o lado e só então declarou.

— Quem diria, encontramos o tal cantor.

— Ele tem uma boa voz. Será que é bom em briga também — perguntou Siegfried, num tom brincalhão. — Claro que deve ser, todos nessa merda parecem saber isso.

— Brigar? O que um cantor vai fazer com a gente, berrar nos nossos ouvidos até pedirmos clemência? — pigarreou. — Poupe-me dessas besteiras, vamos continuar.

O Cavaleiro Lagarto avançou na frente. Siegfried o seguiu, meneando a cabeça e sem desgrudar a mão da espada. Tal ação provou-se ser de extrema prudência. 

Assim que a música parou de ser cantada, uma rajada de energia avermelhada foi lançada contra os espadachins, destruindo a ponte no processo. 

Os dois guerreiros pularam da ponte a tempo, caindo na parte congelada do lago, a qual começou a rachar no mesmo instante do impacto. Levantando-se rapidamente, Siegfried ajudou Tqir a se erguer enquanto rebatia os projéteis mágicos do cantor com sua espada.

Um dos projéteis acertou o gelo que já estava frágil devido à queda dos dois homens, e assim o estilhaçou por completo, fazendo com que ambos caíssem na água gelada. As rajadas de energia não paravam por nenhum instante, e se não tivessem mergulhado, provavelmente teriam sido aniquilados naquele momento.

Dentro do lago, Tqir apontou para sua esquerda, onde havia uma espécie de caverna submersa. Se aquilo fosse o que o cavaleiro vermelho achava que era, conseguiriam escapar do cantor enlouquecido. 

Prosseguiram rapidamente por ali e entraram na caverna. Vamos, não seja muito longa ou eu não vou aguentar, reclamava para si mesmo. Tqir sentia-se cada vez mais pesado a medida que continuava a nadar. Por sorte, a caverna submersa realmente tinha uma parte onde dava para outra área, um pouco afastada do cantor talvez.

Emergiram desesperados por fôlego, e ficaram por um bom tempo enchendo seus pulmões de ar. 

— O que foi aquilo? — perguntou totalmente atônito. 

— Apenas nosso verdadeiro comitê de boas-vindas — respondeu Siegfried, sorrindo mesmo após ter quase morrido instantes atrás.

Se esse foi o de boas-vindas, imagina quando chegar na atração principal, pensou Tqir, preocupado com o que estava por vir.

 

 

***

 

 

Zero lutava contra os montes de neve acumulados no caminho devido a alguma nevasca que ocorrera há pouco tempo. Estava com dificuldades de atravessar aquela imensidão branca sem sentir um pingo de raiva. Por diversas vezes pensou em simplesmente pulverizar tudo aquilo, mas não queria chamar atenção de ninguém naquele lugar, pelo menos não por enquanto.

Sua companheira de viagem e discípula a seguia, há alguns metros, furiosa com a neve que ficava entrando nas botas como se fosse areia. Desde que chegaram em Niflheim, Yertha reclamava do frio, dos ventos gelados e da constante nevasca que cortava a pele.

Ao leste, de onde surgiram após serem enxotadas do misterioso lago das Damas das Ondas, havia uma área completamente coberta de uma névoa densa. Quando percebeu, a Valquíria pôs-se em marcha até o local. A viagem acontecia de forma tranquila se excluísse os acessos de raiva da ruiva.

Contudo, a travessia começou a se tornar mais difícil à medida que se aproximavam do objetivo. Pelo menos tornara-se mais complicada para Yertha, que não possuía qualquer poder sobrenatural que a Valquíria tinha. Enquanto passava a tropeçar em tudo que encontrava pelo caminho devido à névoa impertinente, Zero caminhava a passos largos, em uma fluidez invejável, quase como se flutuasse. 

Graças a essa velocidade acima do normal em um local de difícil visualização, Silenciosa precisava chamar a Valquíria do Infinito com certa frequência, para que ao menos a esperasse. Depois de meia centena de vezes, Zero começou a prosseguir mais lentamente, embora com certa relutância.

Não demorou muito para que, então, as duas guerreiras de Asgard começassem a andar em círculos por uma, aparentemente, infindável planície branca. Em algumas vezes encontravam árvores nuas de folhas, quebradas, caídas ou intactas. Em outras, viam rochas cobertas de neve, folhagens congeladas. Mas no fim, tudo o que sobrava era um deserto gélido.

— Já passamos por aqui, eu tenho certeza — reclamava a ruiva, remexendo a neve com os pés. — Ou quase. Quer dizer, não conseguimos nem sequer ver nossas próprias pegadas porque a neve as cobre muito depressa.

— Há alguma espécie de magia de área por aqui — concluiu Zero. — É necessário que façamos alguma coisa específica ou que recebamos permissão para sairmos do feitiço.

Yertha fez uma careta.

— Magia de área?

— Sim — confirmou com a cabeça, seguindo em frente. — É um tipo de feitiço especial em que o usuário prende as vítimas em uma área, impedindo a saída através de um loop infinito do mesmo local. Se não descobrirmos uma forma de escapar, prepare-se para vagar por aqui até o fim dos tempos.

— Por que as Damas das Ondas não nos arremessaram direto para dentro do templo? Seria tão mais fácil... — disse Yertha, acompanhando a Valquíria. — Esses deuses adoram ficar complicando as nossas... Ei, está ouvindo isso?

Foi apenas quando Yertha comentou que Zero começou a prestar atenção. Um canto, baixo e sereno, podia ser ouvido à distância. Parecia se aproximar, como se viesse rastejando feito uma serpente, lenta, paciente.

— Uma canção, no meio do nada? — questionou Zero. — Ou seria as palavras do feitiço que está nos aprisionando?

— Não faço ideia, no entanto acho que vamos ter a chance de perguntar — apontou para uma silhueta no meio da névoa, que se aproximava. 

A canção passava a se tornar ainda mais intensa à medida que a silhueta chegava mais perto das mulheres. Ambas permaneciam ali, despreocupadas com a situação. 

Quando alcançou uma certa distância, parou seu movimento, e junto dele, a canção também cessou. Agora com a silhueta mais próxima, era possível perceber que se tratava de um homem, apesar de sua voz suave e quase feminina. Aparentava trajar um manto, comprido o suficiente para balançar devido a ventania. 

Ficaram um bom tempo parados, sem sequer mover um único músculo. Zero imaginava quem poderia ser, ou qual sua finalidade, e a única conclusão que chegou foi a que de fato, aquele ser deveria ser o responsável pela magia que lhe afligia. 

— Livre-nos desse aprisionamento — direcionou a fala para o misterioso cantor. — Sei que é você quem a controla.

A voz suave e calma que acariciava os ouvidos da Valquíria com uma doce canção foi substituída por uma voz grave e imponente. 

— Seja bem-vinda, Valquíria do Infinito. As Damas das Ondas nos agraciaram com suas vozes e nos revelaram que a senhora estaria chegando para nos visitar.

— É mesmo? Que generosidade da parte delas — desde quando elas realmente falam com esses fanáticos? — Creio que elas tenham dito também o motivo de minha visita.

— Mas com toda certeza — os olhos do misterioso homem brilharam, um azul claro, em meio a névoa. — Está aqui para aprender sobre nossos costumes e então espalhar a palavra pelo cosmo, não é?

Silenciosa segurou a risada, e por pouco não fez o cantor perguntar o que havia de errado. Por sorte, a Valquíria interveio:

— O combinado com elas não foi esse, infelizmente — disse num tom apologético. — Na verdade, viemos aqui para analisar se realmente vale a pena entregar o conhecimento das nobres Damas para o restante do cosmo, afinal, são ensinamentos, magias e outros diversos tipos de coisas muito antigos e importantes. Não podemos deixar que caiam em mãos erradas.

— Sim, é verdade — concordou. — Pois bem, acredito que mesmo tendo divergências de informações, a senhora tenha vindo realmente a mando de nossas Senhoras. Afinal, ninguém jamais caiu direto dentro do feitiço de área.

— Não? — Perguntou Yertha, inclinando a cabeça. — E por que não?

— O único meio de entrar no meu feitiço é vindo do sul, da direção do castelo de Skadi — apontou para alguma direção, a qual obviamente não se podia enxergar nada a mais de alguns metros à frente. — Contudo, vocês apareceram exatamente no meio dele, de súbito, ou seja, as Damas trouxeram-nas até aqui.

— Entendo.

— Certo, caro cantor. Creio que o seu objetivo agora seja nos levar até seus templos — disse Zero, com um tom despreocupado. — Afinal, não podemos demorar muito para analisar cada mínimo detalhe.

— Claro, claro! — exclamou. — Com o feitiço desfeito para vocês, basta seguirem por aquela direção ali — apontou mais uma vez, entretanto, dessa vez a névoa naquela direção sumiu, mostrando um caminho.

— Obrigado, caro amigo, seguiremos para lá — acenou para a silhueta e então incitou Yertha a segui-la pelo caminho aberto pelo cantor. 

— Tenham uma boa viagem — o homem exclamou, embora a Valquíria sequer ligasse para o que o mesmo dizia.

O caminho seguia linear, com muita neve para atrapalhar. Quando percebeu que já haviam se afastado o suficiente, Zero começou:

— Esteja preparada, mulher.

— E por qual motivo? — Questionou Yertha, surpresa com a ordem da Valquíria. — Acabamos de passar e receber entrada para o templo dos malucos.

— No dia em que as coisas forem fáceis dessa forma e ninguém tentar me enganar, então perceberei que iremos viver em um universo perfeito — respondeu, desembainhando a espada. — Até lá, teremos que conviver com todos tentando me apunhalar pelas costas.