Capítulo 4

  •  

 Atazagorafobia 

 

18

 

Era uma vez uma jovem empregada que trabalhava na residência da prestigiada família Arthmael. Para alguém que fora abandonada quando criança, encontrar um lar como aquele era a realização de um sonho. Todas as manhãs eram agradáveis, todas as refeições eram saborosas, todas as noites eram confortáveis. 

Em um certo dia, a empregada foi designada para trabalhar na casa de um cientista que havia casado há pouco tempo com uma jovem mulher chamada Sarah Amarante. 

Um novo começo. Tenho certeza que um futuro ainda melhor me espera. 

A vida correu tranquilamente durante os primeiros meses. A empregada era tratada como um membro importante daquela nova família, e retribuía todo esse carinho dando o seu melhor nas tarefas domésticas. A empregada não pedia mais nada durante as suas orações, pois toda a felicidade da qual precisava residia naquela pequena casa. 

Mas como tudo na vida, aquele ambiente pacífico também estava destinado a desmoronar. 

Durante uma noite de insônia, a empregada percebeu que estava apaixonada pelo cientista. Seu corpo tremia sempre que estava próxima dele, a sua voz falhava sempre que tentava conversar com ele.

Não posso deixar que, os meus senhores, descubram o que sinto...

Ao esconder os próprios sentimentos, a empregada foi capaz de preservar o ambiente que ela amava mais do que o próprio cientista. 

Passaram-se alguns dias até Sarah anunciar que estava grávida. Aquela pequena residência tornou-se ainda mais viva, ainda mais alegre. 

No entanto, a distância entre nós ficou ainda maior...

O anúncio da chegada de um novo Arthmael não foi o suficiente para suprimir o amor da empregada. Durante as noites, ela sonhava que era casada com o cientista. Imaginava como seriam os seus filhos com ele. O final feliz com o qual ela sonhava desde pequena. 

Mas sempre que acordo e encontro o espaço vazio ao meu lado, a única coisa que posso fazer é chorar. Por que a felicidade daquele que amo machuca tanto? Será que o destino pode ser ainda mais cruel?

Alguns meses depois veio a resposta.

— Você ama ele?

As máscaras caíram. Todas as mentiras foram descobertas. 

Sarah Amarante fitou a empregada com uma expressão séria. Ela já havia notado o comportamento estranho da sua servente há muito tempo, mas com o seu filho prestes a nascer, sentiu-se na obrigação de confrontá-la.

— Sim...

A empregada respondeu, incapaz de manter os seus sentimentos em segredo. Sarah apenas acenou com a cabeça, sem demonstrar raiva ou surpresa. 

— Ninguém escolhe por quem se apaixona... Porém, não posso permitir que continue nesta casa.

Anunciou com um sorriso sereno. A empregada sabia que esse momento eventualmente chegaria, mas não estava preparada para o quão desesperador essa situação seria.

Tenho que ir embora, mas para onde irei?

Quando a única coisa que ela sabia fazer era servir, enfrentar o mundo no outro lado da porta era aterrorizante demais. Enquanto arrumava as malas, esse medo tornou-se ainda pior.

Se eu apenas não tivesse me apaixonado por ele... Se eu tivesse sido capaz de esconder os meus sentimentos apropriadamente...

Por causa de algo tão simplório, a empregada perdeu tudo. O amor tornou-se o pior dos inimigos. Os sentimentos perderam o seu verdadeiro significado. 

Amar significa sofrer.

Se ela não tivesse descoberto. Se ela não estivesse esperando um filho dele. Se ela... simplesmente desaparecesse desta casa. Dessa forma, eu poderia ficar com ele só para mim.

A empregada sentia-se sufocada. A sua visão estava nebulosa, o seu cérebro não era mais capaz de diferenciar o certo do errado. 

Amar significa abrir mão de tudo para ficar com quem se ama.

Inconscientemente, a empregada foi até a cozinha, pegou uma faca qualquer e caminhou sorrateiramente até Sarah, atacando-a pelas costas. Após o primeiro e único golpe, a esposa do cientista caiu inerte sobre o tapete de camurça. Não houve tempo para sentir dor ou medo. O brilho nos olhos dela se apagou imediatamente, como uma centelha de brasa na imensidão do céu.

A empregada não parou. Cortou o estômago de Sarah e retirou a criança que ela carregava. O chão da sala de estar tornou-se um grande oceano de sangue.

Esta deveria ser a minha filha...

A criança estava viva nos braços invejosos da empregada. Uma pequena garota que chorava ao inspirar pela primeira vez o ar daquele mundo sombrio.

Amar significa quebrar coisas.

A empregada abandonou a sua patroa, pegou o pouco dinheiro que tinha guardado e fugiu daquela casa com o bebê em seu colo. Apesar de ter acabado de matar alguém à sangue frio, ela não teve coragem de tirar a vida daquela criança. O coração dela estava cheio de um estranho afeto materno, como se fosse a mãe verdadeira. 

Mas não posso ficar com você...

Durante aquela noite chuvosa, a empregada abandonou o bebê em uma esquina qualquer e fugiu com lágrimas correndo pelo seu rosto. A criança ficou a um passo de morrer por hipotermia, no entanto, seu choro fraco chamou a atenção de um jovem casal que passeava pelas ruas da República do Rio. Eles ainda não possuíam filhos, por isso, adotaram a pequena garotinha e levaram-na para uma pequena vila ao sul, chamada Jothenville. 

Amar significa ter esperanças. 

Após livrar-se dos vestígios de sangue que haviam nas suas vestes, a empregada observou de longe a sua antiga casa. Sarah estava morta. O cientista gritava, aterrorizado. 

Será que finalmente poderei ficar com você?

A resposta era não. 

No final, o cientista expulsou todos que estavam no local. Não deixou nem mesmo as autoridades se aproximarem do corpo de Sarah. Nesse momento, a empregada percebeu que havia sido esquecida. Restara apenas luto na mente do cientista. O mundo dele desmoronou no momento em que a sua esposa faleceu. 

Nunca houve espaço no seu coração para mim, não é mesmo?

Passou-se uma semana. Enquanto o cientista continuava isolado na sua residência, a empregada estava trancada no pequeno quarto de uma pousada. Ela não se alimentava direito, não dormia, não se sentia viva. O dinheiro que tinha havia acabado. Sua única alternativa seria viver nas ruas com aquela culpa que não desaparecia por um segundo sequer. 

Na verdade, ‘viver’ não é a minha única opção. Viver machuca tanto! O vazio no meu coração dói mais do que ter os meus membros arrancados! Meu amor incompreendido destroça os meus sentimentos, fazendo-me gritar em agonia durante todas as noites. Já não havia um lugar para mim neste mundo emudecido, mas agora que manchei as minhas mãos com o sangue ‘daquela pessoa’, fui destinada a morrer completamente sozinha. 

No fim, a empregada optou pelo suicídio. Entretanto, antes de tirar a própria vida, ela precisava ver o rosto do homem que amava uma última vez.

Após retornar ao seu antigo lar, a empregada encontrou uma casa fantasmagórica e sombria. Ao espiar por uma das janelas, achou o cientista caído ao lado do corpo de Sarah. 

Desesperada, ela arrombou a porta de entrada e invadiu a casa. Tudo estava completamente virado de ponta-cabeça, com livros, papéis e lixo espalhados por todos os lados. Assim que chegou à sala de estar, os olhos dela se arregalaram ao notar o estado do corpo da sua antiga patroa. 

Sarah estava corrompida, repleta de cortes profundos que foram costurados posteriormente. Aquela mulher, que antigamente era conhecida por possuir uma beleza invejável, estava ainda mais parecida com uma boneca.

— Você...

O cientista sussurrou assim que notou a presença da recém-chegada. Aqueles olhos cansados mostravam que a empregada era a primeira pessoa que ele via em muito tempo. Não havia vida neles, não havia esperança. Após ter a esposa assassinada e o filho roubado, o cientista perdeu sua alma. Ele também não tinha mais motivos para continuar vivendo.

Amar significa morrer aos poucos.

Por não suportar ver a pessoa que amava naquele estado, a emprega caiu de joelhos e o abraçou forte. 

— Você ainda me ama, não é verdade...?

O cientista já sabia dos sentimentos dela, sempre soube. E agora que havia perdido tudo, ele simplesmente se entregou àquela mulher. 

Os dois se beijaram e se amaram naquela mesma sala, ao lado do corpo de Sarah, corrompendo ainda mais as memórias alegres que um dia preencheram aquele ambiente.

A partir desse momento, a empregada e o cientista passaram a ficar sempre juntos. Um era a âncora de sanidade do outro.

Finalmente terei o meu final feliz ao lado da pessoa que amo.

Era apenas questão de tempo até as pessoas começarem a procurar pelo cientista, afinal, ele era um homem de muita importância na República do Rio, e a sua ausência vinha chamando muita atenção. Para fugir dessa perseguição, ele decidiu desaparecer e recomeçar a sua vida em um lugar onde ninguém o conhecesse. 

E assim, o cientista e a empregada foram embora, levando entre as bagagens o corpo de Sarah.

Mesmo depois de morta, você ainda insiste em roubar uma parte do coração dele.

Os dois se estabeleceram em Jothenville, construíram uma grande casa, mas não uma família. A empregada sabia que no momento era apenas uma substituta, porém, ainda tinha esperanças de se tornar a pessoa mais importante na vida do cientista. Ela só precisava de um herdeiro, que veio poucos meses depois. 

Logo após o nascimento da sua filha, o cientista proibiu a empregada de contar que era a mãe biológica da criança. Contanto que esta ordem fosse cumprida, ela poderia continuar vivendo naquela casa como aquilo que nasceu destinada a ser, uma mera empregada. 

A única decisão que ela pode tomar foi a respeito do primeiro nome da criança que possuía o seu sangue. Aria. 

Sarah pode estar morta, mas ela fez questão de levar consigo tudo que era precioso para mim. A minha felicidade, a minha família, o meu futuro...

A empregada sentia-se completamente vazia.

Graças ao seu poder de manipulação e convencimento, o cientista rapidamente assumiu o posto de homem mais importante de Jothenville. Construiu estradas, prédios e o futuro daquela vila, transformando-a em uma importante cidade. Ele escondeu o corpo da sua esposa em uma luxuosa construção, com a esperança de no futuro, encontrar a tão desejada cura para a morte, e assim ter o seu próprio final feliz.