Chryskylodon - Prólogo

 

 

 

 

 

 

Temporada 2

Os olhos de válio

 

Prólogo

 

 

 

 

 

“A única certeza é que não existe certeza”

Plínio

 

 

Música referência:

Keep Your Eyes Peeled – Queens of the Stone Age

 

Parte 1: “Danger, monsters of smoke and mirror…”

 

Os mononoke1 apareciam de todos os cantos da vegetação; pelos lados, tão como por cima e por baixo deles. Vermelho-carmesim dos onryō mesclava-se com o amarelo-desbotado dos shiryō e com o leve azul-pálido dos ikiryō. Todos levemente transparentes; espíritos de vingança, morte e vida, respectivamente.

Os onryō são almas rubras e amaldiçoadas, espíritos vingativos, presos eternamente no plano terrestre, condenados a vagar por vales, campos e florestas, isolados do dia e das urbes. Ao deslizarem pelo caminho, exalam fumaças negras de seu inferior espectro vermelho humanoide. Odeiam a tudo, inclusive a sua própria existência. Sendo vazios por natureza, não possuem propósito: procuram descontar sua danação no ataque violento a qualquer tipo de criatura, onde e quando bem entendem. São afastados dos centros urbanos por kyūs, películas de proteção provenientes de anciãos e magos brancos dominantes de habilidades paladinas.

 Os amarelos shiryō se diferenciam por serem mononoke escapistas. Emanações que fogem do Limbo ou do Jigoku2 na tentativa de voltar à vida ao incorporarem-se em seres do meio terreno. Alguns demonstram a sagacidade e capacidade de perfurar as barreiras de ks. Assim, assombram residências, até mesmo tomando o corpo de crianças e jovens, as quais posteriormente precisam de rituais harai3 ou outras formas de exorcismo.

Já os ikiryō azul-acinzentados embora realizem incorporações, assim como os mononoke supracitados, não apresentam as mesmas intenções. Ao invés de desejarem o retorno à vida, almejam obter, enfim, o eterno descanso, deixar o plano terrestre e ascender ao espiritual. Para isso, os espíritos ikiryō parasitam o corpo de viventes e, então, cometem suicídio. Contudo, dependendo do michi4 do humano habitado, acabam descendo a campos infernais. Assim, lamentam furiosamente seu destino, aceitando-o ou tendo de planejar modos de escapar do plano subterrâneo para uma nova tentativa de ação.

Naquele espaço, os mononoke soavam sussurros e gritos fantasmagóricos de ira e lamúria. Variavam sua opacidade de acordo com o humor, sendo mais opacos quando estavam irritados. Ali, quase nenhum transparecia.

A bruxa, com seus dotes em onmyōdō5 tomava a dianteira da luta. Manejava um tessen6 prateado de seda endurecida com hastes de metal afiadas como protuberâncias fatais, girando-o velozmente em sentido anti-horário. A movimentação do ar, provocada pelo objeto no gesto coordenado, resultava numa perturbação para os amarelos shiryō, os quais logo se afastavam ou fugiam, liquefazendo-se. Para os ikiryō, ela utilizava um laço com cobertura metálica, aprisionando tais almas azuis no círculo formado e espremendo-as num aperto vaporizador. Quanto aos vingativos onryō, a dominadora de feitiçaria jogava-lhes um pó esverdeado, fazendo-lhes tomarem uma composição física.

Então, seus dois companheiros auxiliavam a exterminar os vermelhos - ou ela mesma cortava os espíritos com as lâminas do leque.

O manejador do grande bastão rokushaku-bō calculava com precisão infinitesimal os golpes que executava. Demonstrava habilidade excepcional na arte do bōjutsu7, derrotando, em um ou dois movimentos da arma, os mononoke que apresentavam tons carmesim. E nem havia precisado inalar seu pó fortalecedor ainda...

O terceiro participante da batalha deixava sua arma de fogo automática giratória disparar às cegas, ora acertando os inimigos corretos, ora levando os projéteis a perderem-se no além. As balas eram úteis somente para alguns dos mononoke tornados em composição física; de resto, os disparos atravessavam-nos sem provocar qualquer dano.

Se qualquer espírito agarrasse algum dos três para iniciar o processo de possessão, um dos outros dois logo auxiliava no livramento de tal incômodo. Deste modo a condução do ato seguia fluidamente, havendo um momento ou outro em que a situação se agravava, devido à elevada e emergente quantidade de inimigos a atacá-los simultaneamente. Os onryō insistiam em ser os mais inoportunos. Porém, em vias gerais, tanto a bruxa, quanto o senhor do bastão e o atirador não sofriam grandes injúrias, e mantinham o desenvolvimento do combate sob controle.

Após longos minutos de suor escorrido, cápsulas de projéteis caídas em solo arenoso e fumaça emanada, a bruxa conjurou um kyūs em formato semiesférico, todavia invisível, com um raio de 10 metros. Estariam protegidos dos espíritos pelos próximos 30 minutos, desde que permanecessem no interior da semiesfera. 

Os mononoke, justamente por serem almas sem vida, não eram capazes de morrer; apenas encontravam-se por alguns instantes num espaço-vácuo desconhecido e inalcançável por seres comuns para, então, retornarem ao seu local de origem: Jigoku ou plano terreno.

Com o cessar da batalha, a bruxa retornou seu tessen e laço para a cintura, o atirador deixou o cano da arma de fogo resfriar. Enquanto isso, o manejador do bastão percebeu uma figura humanoide, empoleirada nos ramos fortes de uma árvore próxima, encoberta pela sombra das nuvens do dia cinza que pairava sobre eles. Um trinado soou agudo, ao longe. Tal figura, em posição agachada, ao identificar o apito sonoro alçou voo rápido, rufando as longas asas rumo ao Castelo Kobata. O colega atirador, que não havia visto a figura alada nem escutado o apito, comentou sorridente e despreocupado:

 Ah, que dia magnífico, não, Chrys?

O citado ainda focava na trajetória do homem-ave e no caminho ascendente adiante. Calculava previsões de ação sobre a presença daquela figura voadora, estimando projeções e consequência acerca daquele detalhe. Sem fitar seu companheiro, respondeu:

— Não. Não mesmo.

 

 

 

Parte 2: “Praise God, nothing is as it seems”

 

Comiam arroz em pequenos ohitsus8 de cerâmica, aquecidos numa fogueira improvisada, acendida pelas habilidades mágicas da integrante feminina do trio. Pegavam o alimento com as mãos, não pela ausência de chamoji9 ou outro um instrumento adequado, mas sim por estarem acostumados a este gesto. Além do arroz, algumas algas verdes e amarelas, tão como nacos de carne branca acompanhavam a refeição.

Chryskylodon distanciava-se de alguns metros da dupla, de costas para ambos. Apoiava-se em seu bastão retrátil, posicionado em sua postura clássica ereta e rosto levemente erguido. Admirava o dia nublado e sentia a brisa gelada bater-lhe no rosto acinzentado. Toda sua pele apresentava esta tonalidade cinza. Sua composição física alta e um tanto magra, enganava quem o via à primeira vista, levando à tendência de se acreditar que tal indivíduo era fraco e desajeitado, embora assustasse pelos seus 2,36m de altura. Os curtos cabelos negros bagunçados rimavam com a aparência da barbicha em seu queixo afunilado.

Concordaram em cessar por um tempo para a refeição e, após, descanso. Seu companheiro de jornada levantara-se e vinha em sua direção com o ohitsu em mãos.

 Não quer um pouco?

 Não. Obrigado, Nox.

Nox trazia em sua mochila de acampamento os mantimentos necessários para a viagem. Arroz, água, cigarro, fósforos, revólveres e minigun, munição, linha e agulha para sutura, cigarro, gazes, toalhas, algas, bússola, charuto, óculos de sol, óculos de proteção, camisetas, cuecas, entre outras vestimentas, papel higiênico para as necessidades naturais, pó de café, pregos, martelo, saco de dormir, futon10 inflável, ohitsus, isqueiro, cigarro e mais cigarro, e demais objetos com funções secundárias e terciárias. Sua mochila ultrapassara os trinta quilogramas de massa, mesmo assim ele possuía músculos para tal carregamento. Havia calculado suprimentos suficientes para 7 dias, com 3 integrantes, contudo, como Chryskylodon detinha a capacidade de jejum infinito, economizaria boa parte da comida, papel higiênico entre outros mantimentos.

Terminou de se alimentar. Deixou o ohitsu de madeira numa rocha ao lado e soltou um sonoro arroto de aprovação do prato e satisfação de apetite. Tentava olhar para o ponto fixo que Chryskylodon tanto observava. Franziu a testa e semicerrou os olhos para o céu com nuvens escuras.

 Sabe, Chrys, tem vezes que eu te admiro, e outras que te acho estranho pra cacete.

 É mesmo, Número de Oxidação?

Chryskylodon não apreciava totalmente a forçada intimidade que Nox o fazia ao chamá-lo por um apelido diminutivo inventado. Em troca, realizava exatamente o contrário: o chamava por um nome estendido, não verdadeiro, num trocadilho com intenção tanto de irritá-lo, quanto de adverti-lo a parar de repetir esse chamamento. Chryskylodon, embora sisudo na maior parte do tempo, também sabia se descontrair em certas brincadeiras críticas.

 Ha. Que engraçado. Você realmente deve ter ido a todas as aulas de Química na escola  Nox comentou, sério  Admito que eu engabelava algumas. Várias, na verdade. É. Eu nunca fui aquele tipo de aluno dentuço e quatro-olhos que ficava grudado no quadro e no caderno. Assistia a uma aula ou outra, vinha no dia da prova, colava quando precisava, claro. E deu. Tirava umas notas razoáveis. Dava pra passar. E enquanto esses otaku11 daí se arregalavam com um exercício de três páginas eu batia papo com as meninas. Enquanto eu batia nos marmanjos no kendo12 da Educação Física, esses daí jogavam Go. Eu acabava curtindo a escola muito mais do que os “estudantes exemplares”  pronunciou o último termo fazendo uma voz mais aguda  E nunca sofri por causa disso. Muito pelo contrário...

 Ah. Então você era esse tipo de aluno  Chryskylodon adicionou balançando a cabeça  Agora tudo faz sentido.

Os dois se entreolharam. Um momento de silêncio. E, então, a risada de ambos.

 É. Mas veja só você, Chrys. Todo certinho, roupas de primeira mão, você deve ser um otaku. Daqueles que derrotavam qualquer um no kendo e, ainda por cima, também no Go e no shogui13. Hah. Queria estar lá na mesma escola que a sua pra presenciar isso  esperou uma resposta dele, porém Chryskylodon apenas o relanceou e retornou o olhar para as árvores e o breu adiante  Isso se você foi para a escola, né. Talvez tenha aprendido a se virar sozinho, um autodidata de classe. Heh. Vivendo com os lobos. Na selva. Uh. Quem sabe no seu tempo nem existiam escolas, não? Afinal de contas, quantos anos você tem, Chrys?

 Mais do que você, certamente.

Esta resposta óbvia não era exatamente o que Nox desejava.

 Sim. Só que você deve ter visto bastante coisas por esse mundo, não? Quer dizer, talvez desde antes dos Hachida e dos Kobata  pegou um cigarro e isqueiro do bolso. Acendeu-o, aguardando um pronunciamento de seu colega. Sem qualquer indício de fala, continuou  Eu nasci e cresci nesse tempo desgraçado. Na real nunca dei muita bola pra isso. Tive um irmão que foi condenado à morte por uma suspeita de furto. Eu emputeci na época, claro, mas depois deixei ir porque são coisas da vida. Ele não era o único a ter sofrido por conta da situação. Não. Dois meses depois de ele morrer acharam o verdadeiro ladrão. Foi julgado, mas absolvido por ser filho ou neto sei lá de que shogun14 da região. Ah. Você sabe como as coisas são. Heh  seu riso irônico era lamentoso sobre o caso. Chryskylodon ouvia tudo, silencioso  E realmente não sei se as coisas vão mudar. Mesmo com o que você quer fazer aí. Você sabe que eu vim mais por gostar de uma boa aventura do que por retaliação ou qualquer outra coisa além. Acho que a Mariana tem bons motivos, melhores que os meus aliás, pra estar junto disso  fitou a mulher que terminara de comer e estava agora deitada numa rocha, imersa em nuvem, saboreando seu baseado em meio à brisa fumacenta  Heh. Pelo jeito ela está se divertindo.

 Chryskylodon e Nox sentiam o forte cheiro da canabis. Para o Inabalável isto era ignorável com facilidade. Já para Nox, o odor causava-lhe certas náuseas quando exposto por um longo período.

 Afinal, onde você quer chegar com esta conversa?   Chryskylodon questionou.

Nox deu uma longa sugada no trago.

 Só quero saber o que você pretende fazer realmente com essas coisas. Quando tudo acabar. Se tudo acabar. E a gente matar de vez os Kobata e os Hachida como você diz. E voltar à vida normal que essa gente de Akira nunca teve. Quando a Mariana chegou a me falar sobre isso, eu aceitei de prontidão; não ia perder isso por nada. Heh. Claro, eu vou querer minha parte do ouro depois. “Não existe almoço grátis”, não é mesmo? Mas não sei se vai ser assim tão simples quanto parece. Um final feliz pra Akira e o dia raiar colorido para sempre em todas as casas akire e... Ah. É estranho eu ficar pensando nessas coisas. Nunca fui assim.

Chryskylodon virou o rosto vagarosamente para o homem branco e careca ao seu lado. Notava seus dentes amarelados por conta da nicotina e café.

 Se você quer desistir, fique à vontade.

 Humpf. Se eu quisesse desistir, já estaria fazendo coisas bem mais rentáveis, Chrys.

Imagino”. Por conta do desgaste na batalha com os mononoke o de pele cinzenta deslizou o topo de seu bastão cilíndrico, revelando um compartimento no qual guardava algumas cápsulas do tamanho de um dedo indicador. Quebrou uma ao meio e inalou o conteúdo de seu interior.

 Você nunca dorme é por causa desse “pó de pirlimpimpim”, ou já é algo por natureza?

Sentindo o cheiro misto de tabaco do cigarro de Nox e da erva de Mariana, Chryskylodon respondeu:

 Você só é chato quando fuma, ou já é algo da sua natureza?

Nox balançou a cabeça, meio concordando, meio discordando e rindo silenciosamente.

 Heh. Na verdade, só quando fumo.

 Sei  Chryskylodon concordou, meneando  Mas você está sempre fumando.

 É... Bem lembrado.

Foi quando o Alto percebeu um tremor súbito na terra, percorrendo toda a montanha. Nada. E, então, mais um tremor, de uma intensidade que fazia partículas de areia do solo saltarem à altura dos joelhos do Cinza. Nox notou a oscilação, de mesmo modo, automaticamente jogando o resto de seu cigarro no chão e pisoteando-o para apagar. Ele virou seu olhar para Mariana, que se levantara da rocha na terceira vibração. Chryskylodon fitou o topo do monte, com o Castelo de arquitetura rígida e quadrada. Mais um dia de caminhada e atingiriam a construção. No quarto tremor avisou:

 Nox, prepare suas armas e munição. Bastante. Mariana! Pratique o kuji-kiri15 e convoque shikigamis16, quantos você conseguir.

 Eita  Nox exclamou, já se movimentando para sacar os cartuchos e armamentos de seu inventário  Isso não é só um terremoto como eu pensava, então.

O quinto tremor fê-los cair no chão.

 Não  o cinza Chryskylodon levantou-se e fechou os olhos  Não mesmo.

Parte 3: “If life is but a dream then wake me up”

 

 Droga...

Se ele chegar aqui estou morto! Se ele chegar aqui estou morto!. Só o que ele era capaz de pensar àquela hora. No parapeito do cinza muro de pedra, no alto de seu castelo cinza-negro, olhava fixo para o que estava abaixo; a citadela ao fundo, a floresta escura e cinza mais próxima, um rumor ao longe. Mas não o bastante. Palpitava como nunca antes. Nem mesmo na Guerra dos Flagelos estivera tão desesperado. Nem mesmo diante da morte de seu prezado pai estivera tão trêmulo. Nem mesmo seus anos de vida agitada por conturbadas batalhas proviam experiência suficiente para fazê-lo agir objetivamente, mostrá-lo um caminho direto à solução, saber como lidar com aquela situação.

 Droga.

O ar ventava, movimentando as folhas verde-acinzentado lá embaixo. O céu se ocultava em temor nebuloso. As nuvens preto-claras avançavam, encobrindo o perímetro de todo o território de seu castelo e terras além. O chão, de um branco escuro, ele batia, com sua bota de couro e metal. Cinza. Tudo cinza e ele ali, rangendo. 

O som das espadas retornou; o furor da batalha, a violência das lâminas reluzentes ao sol matinal; uma madrugada inteira de guerra, corpos à jusante, ao redor, abaixo de si; sua armadura prateada tornada rubra, a cacofonia de gritos e gemidos e raspares de aço contra aço, aço contra pele, músculos. Suas mãos calejadas ainda encontravam forças de maneira misteriosa. Nervos. A fúria espalhando seus dedos longos e flamejantes pelo campo de batalha. Frígida. A imagem sua golpeando alguém na cabeça, arremessando outro longe pelo torso, atacando outro com imensa força as costas, o abdome, as pernas. E aquele alguém subitamente vira o rosto: seu pai. Mas não era em realidade. Não podia ser. Ou podia? Mesmo que quisesse fugir, não poderia. Mesmo que pudesse fugir, não deveria. E assim ele ficou. A ira suplantando o medo e o pensamento abstrato em meio àquela cena. 

Grotesca.

Lembrar daquilo fazia Lyoto Kobata ter dois sentimentos: culpa e vontade. Culpa por insistir em pensar que assassinou seu pai. Por engano? Assombrado pelo erro crasso de estratégias bélicas erradas, pelas falhas militares catastróficas, pelas enormes perdas de contingente e pela vitória agridoce. E, mesmo assim, havia a vontade de ter novamente forças semelhantes àquelas, de ter conhecimento e firmeza em agir para, então, vibrar ao fim. E isto o crescia. Seu ego, sua estima, seu espírito; voltava-lhe o punho cerrado e o caráter animoso típico de sua família. E, então, O Tirano gritou com o êxtase ascendente, embora não totalmente livrado do temor:

 DROGA!!

 Está aqui senhor.

Chihiro, o fiel, antigo, e provavelmente eterno, servo da família Kobata, prostrava-se ao lado de Lyoto com uma oval bandeja de prata cheia de pílulas coloridas.

 Hã? Não Chihiro, eu não quero drogas.

 Mas o senhor...

 Não! Só...  pensou por um momento  deixe-me ver como está Yakuzai.

 Sim, senhor  Chihiro o guiou até a sala onde sua esposa repousava. 

Yakuzai não pode parir agora. Não hoje”. 

A sala apresentava um odor floral e amoníaco, permeado de incensos e cortinas de seda púrpuras, criando um ambiente agradável e sereno. Três doulas brancas como leite sentavam-se no chão de pedra com os pés movimentados nas águas da grande banheira circular no centro da sala. As águas termais deslizavam pelo corpo de Yakuzai, com seus longos cabelos negros flutuando nelas, com sua pele branca, não como leite, mas angelical. Ela recebia massagem nos ombros por uma doula, suavemente. Lyoto sabia que aquilo era um procedimento pré-parto, com a intenção de se realizar uma espécie de parto humanizado, sinônimo de boa saúde e sorte ao bebê que chega. Todavia isto era o que o Tirano menos desejava nas atuais condições.

 Minha ojo  Acariciou seu rosto, agachado ao seu lado  São momentos difíceis, eu sei, eu sei. Eu sinto o que você sente  na verdade, não sentia  Eu vejo o que você vê. Eu sei.

Yakuzai permanecia de olhos fechados, inspirando pelo nariz e expirando pela boca. Três segundos de inspiração. Seis de expiração. Como treinara num método de relaxamento.

Lyoto continuava a falar sua falácia hipócrita. A insegurança fluía em cada palavra, a falsa harmonia do “tudo vai dar certo”. O Tirano já fora melhor comunicador. Chihiro observava aquilo com indiferença. Já vira tantos membros da família Kobata morrer por susto, bala ou vício, jogados de bruços, nos braços da Morte, que não se espantaria em participar do crematório de Lyoto em breve. Discursaria um discurso igual ao de todos os outros predecessores, com seu “grande senshi17”, “forte e digno lutador”, “perda eternamente lamentável... 

A verdade é que Chihiro estava de saco cheio daquilo tudo. Fazia o que tinha de fazer somente por não ter outra opção. Também, o pobre era petrificado em labor e resignado pelos anos de servidão, desprovido de sonhos aspirantes a uma vida etérea, tropical. Portanto prosseguia assim, simplesmente correspondendo ao trabalho.

A doula que massageava Yakuzai pediu com delicadeza para Lyoto se retirar, pois a presença dele emanava uma aura de tensão indesejável e atrapalhava todo o procedimento, além de demarcar falas não agradáveis à gestante. Kobata levantou-se repentino e, em passos largos, saiu, sem cerimônia. Chihiro o acompanhou.

 Chame o Falcão  declarou, seco.

 Sim, senhor.

O servo retirou do bolso de sua blusa um apito de marfim roxo. Apitou-o. Oito segundos, nove; frequência inaudível para humanos soou pelo espaço; quinze segundos, dezesseis; Lyoto voltou a se apoiar no parapeito de mármore do ambiente externo; vinte segundos, trinta. Uma figura alada surgiu cinza-marrom, sem grande contraste com a paisagem ao fundo. O Falcão, rosto e corpo de homem, com semelhanças faciais de ave e grandes asas marrons, pronunciou-se:

— Trago novidades, Lyo.

 Hm.

 Seu coleguinha acabou com todos os orochis. Junto com os outros. Igual em Andorra. Com os mononoke também. É o que todo mundo esperava, não pois? Até eu sabia disso, pelo amor. Então nem grite droga”, porque ele já está subindo com seus amiguinhos de férias. Estranhos como sempre. Mas dessa vez ele está nervosinho. Mais do que o normal. Hehe. Vi pela cara dele especialmente que não está vindo pra brincadeirinhas. Ha! Tem um lá que encara isso como um jogo. Vá se entender. Olha só. Você tinha que ver a sua cara agora. Haha! Está ficando roxa! Vermelha. AI!

Lyoto Kobata, mesmo sendo em torno de dez centímetros menor que o Falcão - o qual se apresentava com seus dois metros de altura ou pouco mais - agarrou-se ao pescoço dele com unhas afiadas, arranhando a pele do homem-pássaro.

 Não brinque comigo, passarinho  um filete de sangue escorria do pescoço do Falcão  você bem sabe que um de seus amiguinhos já perdeu uma asa por causa disso. Não é mesmo? HEIN?!

 É... é!

O Falcão se sentia mais deslocado do que medroso. Seu jeito espontâneo era característica imutável. Certas vezes se expressava de modo bizarro ou incerto, falando mais do que poderia, ou menos do que realmente deveria dizer. As vítimas de suas piadinhas sentiam o gosto amargo da crítica, em algumas ocasiões disfarçada, noutras, explícita. Alguns interlocutores ignoravam. Já certos, como Lyoto, nunca.

 É, claro. Sim, senhor. Estou preparado. Toda vida a seu dispor  brincou o mensageiro alado.

 Hm  ignorou a ironia, Kobata.

Lyoto situou-se em um instante de silêncio pensativo. Interrogava-se internamente sobre a ação seguinte a ser tomada. Tinha quase certeza que Chryskylodon e seus colegas chegariam ali ao topo em poucas horas caso não fosse interferido de alguma forma. As criaturas enviadas serviram apenas como contratempo para o Inabalável. Precisava de algo mais eficaz. Mais intenso, mais devastador, mais bestial. “Tem vezes que você pensa e pensa, filho, para, no fim, seguir seus instintos”. As palavras de Kaneda Kobata, seu pai, o motivavam a tomar decisão que queria tanto, apesar das diversas problemáticas envolvidas na mesma...

 Chihiro.

 Sim, senhor.

 Solte o Kaiju  declarou sem hesitar.

 O quê?!  ambos o Falcão e Chihiro perguntaram em uníssono. Até mesmo uma outra serva que escutava a conversa de canto soltou um gritinho.

 Ai, meu senhor, ai...  a serva correu chorando em retirada.

 Faça o que você ouviu  O Tirano ratificou calmamente, ignorando a cena.

 Eu não entendi, senhor  Chihiro retorquiu.

 Você está louco?!  berrou o pássaro  Você tem noção do risco que é essa criatura?! Você tem a mínima ideia do que aquele bicho nojento vai causar não só pra citadela, mas pra toda Akira?! Você...

 É senhor, me desculpe  acrescentou, Chihiro  mas eu também acho que...

 ...danos irreparáveis! Desgraça eterna é o que vai...

 ...repensar com cuidado, uma decisão alternativa...

 ...destruição geral da ilha! Morte de milhares! Caos total! Destr...

 ...evitar problemas futuros, para o próprio senhor e família...

 ... você tem noção? Tem?!

 ...pense, senhor, há outra maneira...

 ...APOCALIPSE?! É isso o que você quer? HEIN?!

Agora era o homem-pássaro que tentava abalar Lyoto, sacudindo-o pelos ombros. O Tirano simplesmente disse:

 Você com medo, Falcão? Hm. Quem diria. Parece, agora, um frangalho, uma galinha. Faça o seguinte: não olhe. Só não cacareje. Mantenha seus olhos abertos. Mas não olhe. Não dê uma de ceguinho para ignorar os acontecimentos  deixou a frase soar. Analisou o rosto receoso do homem-ave. Retornou o olhar para o servo  E você também Chihiro: apenas FAÇA o que mandei!

Chihiro saiu e os dois ficaram se olhando; ambos sem palavras. 

O céu livrava-se do cinza, timidamente. Com isso vinha um celeste azul-escuro. Sangue pingava do pescoço do Falcão, vermelho. Lyoto olhava-o, sem vê-lo, com seus olhos castanhos. A floresta lá abaixo parou de farfalhar, verde. 

Apesar das cores, o dia continuava. 

Cinza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fim do Prólogo

1

 Mononoke são espíritos da cultura e literatura clássica japonesa, diz-se que realizavam possessões e faziam os indivíduos tomados sofrerem, adoecerem e, até mesmo, morrerem.

2

 Jigoku é o inferno ou reino dos mortos na mitologia japonesa, tendo relações com o Naraka da cosmologia budista

3

 Harai é um ritual de purificação próxima do exorcismo, no qual o sacerdote agita sobre o indivíduo ramos da árvore sagrada, sakaki.

4

 Michi é um termo da cultura nipônica e religião xintoísta que significa o “caminho moral” de um indivíduo, atrelado ao ideal de justiça e caráter.

5

 Onmyōdō é dita como a ciência cosmológica esotérica japonesa, misturando ciência natural e ocultismo.

6

 Tessen: uma espécie de leque com lâminas, utilizado no combate marcial.

7

 Bojutsu: arte marcial asiática que consiste em lutar com o rokushaku-bō, um bastão de aproximadamente 180cm.

8

 Ohitsu é um pote, geralmente de madeira ou cerâmica, para se comer arroz.

9

 Chamoji é uma espátula/colher geralmente de cerâmica, podendo possuir ideogramas pintados.

10

 Futon é um tipo de colchão tradicional, utilizado tanto para se sentar ou deitar, servindo como sofá ou cama.

11

 Otaku é uma palavra japonesa comparável a nerd ou geek em inglês, para designar alguém que é fã de algo em excesso. Popularizou-se ao ser utilizada para aqueles que são fãs de animes, mangás, novels, dentre outras obras da cultura pop asiática.

12

 Kendo é uma arte marcial moderna desenvolvida a partir das técnicas tradicionais de combate com espadas dos samurais do Japão feudal.

13

 Go e shogui são dois tipos de jogos de tabuleiro nipônicos, de alta complexidade, raciocínio e tática.

14

 Shogun é uma distinção militar fornecida diretamente pelo imperador para um general ou comandante do exército.

15

 Kuji-kiri é uma técnica que consiste em desenhar no ar símbolos ritualísticos para se obter poder, energia, cura, dentre outros benefícios ao praticante.

16

 Shikigamis são espíritos invocados pelo praticante de onmyōdō, que servem para servir e proteger.

17

 Senshi é uma palavra em japonês que significa “guerreiro”, “lutador”, “guardião”.